
Faria um ano que a nossa tevê só servia pra retransmitir as imagens do aparelho de DVD. Bebê Mais, Baby Einstein, Cocoricó, seriados e filmes eram o menu televisivo. Sábado, 3 de maio de 2008, uma inexplicável vontade de “ver o mundo” tomou conta deste blogueiro. Saí de casa atrás do fio branco que conectaria nossa tevê ao espantoso mundo dos canais abertos. Quarenta minutos depois, lá estavam, na minha sala e em frente ao meu sofá, os assombros da tela plana.
O jejum começou sem querer. A gente se mudou e empurrou com a barriga todo o processo de pesquisa de preços pra saber qual tevê assinar. Isso dá preguiça. Havia a possibilidade de, pelo menos, ter a tevê aberta, mas aí aquela preguiça se transformou no hábito de não ver televisão. Ficou o hábito.
Porém, toda vez que, sem querer, eu topava com uma tevê pela frente, eu via um mundo irreconhecível. Não podia conter, e ainda não consigo, a estupefação: “Hum... então é assim que a coisa ‘lá fora’ tá...”
Zapear pelos canais é mais divertido. Ligo a tevê, aí aparece o Ronnie Von falando pra uma menininha “Eu gravei essa música em... em... 1962. 1962! Faz tempo...”.
Pulo noutro canal, um de vendas, e dois apresentadores tentam me empurrar vista a dentro um aparelho de ginástica miraculoso, que faz emagrecer ou ganhar peso dependendo da sua capacidade de autosugestão, que “delineia o corpo”, que “enrijece o tônus muscular”, que “trabalha panturrilhas, coxas, abdômen, bíceps, tríceps, costas, peitoral, deltóides e trapézio” – e enquanto eles me iludiam com as maravilhas do troço uma moça escovada e sorridente se acabava no aparelho, sorrindo forçosamente. Morri de rir.
Outro pulo, caio num programa infantil. Um casalzinho apresenta desenhos, trocam piadas, propagandeiam um produto lá, dão ensinamentos morais e ecológicos, etc. Não pude segurar a comparação com miquinhos amestrados que me saiu pela boca.
Próximas paradas, canais religiosos. Devo confessar, aqueles pastores são fantásticos. Eles não gaguejam nunca! Têm o discurso fluido, impecável, vivaz, olham diretamente na pupila da camera e atinguem minha hipófise. Noutro canal, a bispa fulana daquela igreja famosa dava uma palestra. Digo, ela ministrava o culto; mas o ínfimo microfone de orelha, o Vaio sobre o púlpito e a desenvoltura dela junto a platéia quase me fazem acreditar que aquilo era uma palestra motivacional em recuros humanos e, nesse caso, divinos. Soltei um “Uau” e passei pro próximo. Quem falava agora era aquele do bigode. Haja verve! Show man. Ele é tão vigoroso que, não fosse o produto dele tão desgastado, até me convenceria numa realidade paralela.
De lá pra cá, noutros dias e noutros horários, mais espantos. Vi a provecta Garota de Ipanema num programa de humor esdrúxulo (o do Tom Cavalcante com Tiririca), um programa do SBT que imita o American Idol, uma novela com mutantes e cenas de luta, etc.
Acredito que daqui a pouco a nossa tevê vai voltar a ser apenas suporte ao aparelho de DVD.
PS: Na verdade, a TV Brasil, a Câmara e a Senado salvam a pátria.
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