
De qualquer forma, eu me sinto bem quando leio essa relação aí. Vejo que é possível conviver com o terrível pitbull do duodeno. Até da maneira errada, como era o caso do Nelson, como parece ser o meu. Ele alimentava a ferinha com leite, coisa que médicos, palpiteiros e pais-de-santo, todos eles, concordam ser de uma estupidez alvar. Mas mesmo assim eles conviviam, ela sempre a reclamar carinhos dele, ele sempre a apaziguando com mimos lácteos e, ininterruptamente, nicotínicos. Neste segundo tipo de afago nós, eu e Nelson, estamos de acordo. “Cigarro, café e bebida, pare com isso tudo” me falou o médico depois de uma endoscopia brutal, que apontou os flagelos ulcerosos nas minhas... entranhas. Ainda assim continuei embebedando o organismo com Johnny Walker, e o energizando com Café do Sítio, e o esfumaçando com Lucky Strike. Eu e Nelson, sufocando a úlcera a baforadas.
É uma relação crudelíssima, essa entre úlcera e ulcerado. É visceral (literalmente). Um grande jogo sem regras. Ganha quem mascara a crueldade com indiferença e vice-versa, perde quem tem estômago. O pior é que é uma chaga de adultos, para adultos. Uma jogada do destino cheia de requintes, provocar no pseudo-racional adulto um mal deliberadamente irracional e interno!
Semana passada, entretanto, a relação com minha doce úlcera mudou. Ela cansou dos Johnnies e das Quilmes, dos Luckies e dos Camels, dos espressos e dos chafés. Tenho estômago, perdi a briga. Fui à lona, vomitei, mal dormi, pedi clemência e não soltei um palavrão sequer. Medo.
Isso não ficará assim, úlcera. Você morrerá! E quando estiver estatelada no asfalto, não lhe darei beijo algum. Eu vou é baforar na sua cara...
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Imagem do Nelson
Foto-Arte: © Revista Veja de 13/03/1980 (Capa)
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