Ela perdeu o emprego. A agência fechou. Ela aceitou o primeiro bico que apareceu. Demonstradora numa feira erótica. Manequim de lingerie. "Vamo lá, você tem o corpo bonito, não quero ir nessa sozinha", disse a ela uma amiga também desempregada. Esta amiga, 14 meses depois da tal feira erótica, passaria num concurso público ― para o qual estudou dez meses com afinco ― e seria transferida para outra cidade. Contato só virtual.
Nada de mais aconteceu durante a feira. Ao contrário do que pensou quando a amiga a convidou para o trabalho, o ambiente lá era dos mais profissionais (o que não a livrou das cantadas baratas, às quais toda mulher está sujeita, seja onde for). Mas, no segundo dia de trabalho, conheceu uma mulher educada, aparentando uns quarenta anos, que lhe elogiou a beleza e lhe deu um cartão de visitas, onde leu Fulana de Tal, caça-talentos, telefone.
Esse encontro tão despretensioso abriria um novo mundo a Renata. Um mundo no qual ela pode bancar a faculdade que faz hoje, fisioterapia; no qual ela pode morar bem, um flat só para ela; no qual ela pode ajudar a família a ter um pouco mais de conforto. Aos 25 anos de idade, Renata é garota de programa e faz aparições na indústria pornô brasileira.
Demorou para que seus pais aceitassem sua atividade profissional (eles não sabem da prostituição). Muitas brigas, muitas conversas. Mas ela deixou claro que é uma atividade temporária. Ela tem para si que o pornô é só uma maneira de "se colocar na vitrine" e poder cobrar mais caro pelos programas.
A história da nossa personagem Renata poderia ser uma das histórias reais do livro Nas redes do sexo ― Os bastidores do pornô brasileiro, de María Elvíra Díaz-Benítez (Jorge Zahar, 2010, 240 págs). Renata ilustra bem o quanto de clichê e de verdade há na vida de quem ingressa no pornô. Ela quebra o preconceito dos mais retrógrados, aqueles que desclassificam quem trabalha com pornô ― mas que não param de consumir seus filmes ― porque não há nada traumático na vida dela que a tenha feito escolher este "negócio sujo". Infelizmente, o mesmo não se pode dizer dos atores gays, em alguns casos, e, na maioria deles, dos travestis: pessoas que sofrem preconceito de forma cruel, desde dentro de casa.
Renata personifica um comportamento habitual dos performers do pornô: o de que fazer sexo por dinheiro em frente às câmeras é um meio de bancar projetos de vida ― o pornô em si não é um projeto de vida, pelo menos não é para maioria das mulheres. Renata dá exemplo de duas realidades: a de que não é tão fácil viver do pornô no Brasil e a de que a prostituição de luxo é um ramo paralelo rentável e confortável.

Terry Richardson ©
(http://www.terryrichardson.com/)
Não existia na nossa indústria do entretenimento a figura da porn star. Figuras como Jenna Jameson, Janine Lindemulder, Silvia Saint. São estrelas genuinamente pornôs. Recentemente, tendo por desbravador Alexandre Frota, muitas celebridades decadentes emprestaram sua fama a produções eróticas. Esta "migração", digamos, não diminuiu o desdém hipócrita em relação aos atores e atrizes pornôs, porque as tais celebridades fazem incursões rápidas nesse meio (da mesma forma como almeja Renata), deixando claro que é indigno viver disso, ou mesmo ter uma carreira longeva. Não há, no pornô nacional, atrizes genuinamente pornôs com a longevidade de uma Nina Hartley. Hoje, Mônica Mattos é a atriz pornô brasileira que encarna a porn star nos moldes profissionais como conhecemos noutros países. (Curiosamente, o status de porn star é conferido a mulheres e atores gays. Atores heterossexuais como Rocco Siffredi são exceções.)
María Elvíra Díaz-Benítez, antropóloga, a autora do Nas redes do sexo, pesquisou durante dois anos a indústria pornô brasileira onde ela é mais forte, São Paulo. Trabalhou com os três tipos principais de filmes eróticos: hétero, gay e travesti. Por meio da observação participante, Díaz-Benítez escreveu um livro esclarecedor. Um estudo antropológico, escrito em linguagem acessível e repleto de notas, sobre como funciona o milionário mundo do sexo audiovisual, desde a hora em que são recrutados novos performers até o momento em que o consumidor final verá o desempenho deles na tela.
Desempenho é a palavra-chave. É o que liga todos os elos da cadeia de produção do pornô. O espectador tem sede de desempenho, os atores e atrizes têm sede de desempenho, assim como os diretores. O filme erótico é a espetacularização do sexo, feita tanto para quem carece de desempenho quanto para quem emula o que vê na tela.
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Publiquei primeiro aqui.
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