Publiquei primeiro no Digestivo Cultural.
O primeiro amor é perfeito. Tudo nele é bom e se enraíza futuro afora na vida do amante. Tudo nele é perfeito, aliás, porque o primeiro amor é uma conquista do amante, não do amado – mesmo quando a loteria da reciprocidade funciona e amantes e amados se encontram no espelho arranhado das projeções, é o amar, e não o estar amado, que é transformador e que encoraja. O primeiro amor é perfeito, como tudo que criamos no nosso mundo interior.
O primeiro amor é perfeito. Tudo nele é bom e se enraíza futuro afora na vida do amante. Tudo nele é perfeito, aliás, porque o primeiro amor é uma conquista do amante, não do amado – mesmo quando a loteria da reciprocidade funciona e amantes e amados se encontram no espelho arranhado das projeções, é o amar, e não o estar amado, que é transformador e que encoraja. O primeiro amor é perfeito, como tudo que criamos no nosso mundo interior.
Depois do primeiro amor, vêm a vida e outros
primeiros amores. Mas aquele objeto inicial permanece, como a epítome da pessoa
que o amante era capaz de ser e nada do que o então amado faça, nada do que a
vida faça a ele, será capaz de transformar isso.
Tudo isto sobre primeiros amores, e outras considerações
que ficarão para outra hora, estão comigo desde que li o livro Antes
que seque, de Marta Barcellos (editora Record, 2015, 190 páginas). É
um livro de contos, vencedor do Prêmio SESC Literatura de 2015, de uma
escritora experiente que estreia na ficção. Um dos seus contos se chama
justamente “Primeiro amor”, um conto curto e poderoso que narra o poder de
permanência do encanto da primeira paixão na nossa vida amorosa. Mais que isso,
não posso falar. Mas posso falar que um traço marcante deste conto, que é
compartilhado pelas demais histórias do livro, é a ambiguidade agridoce da vida
cotidiana. A beleza das coisas pequenas, que acobertam atrocidades; o incômodo
dos gestos mesquinhos, que infectam nobrezas.
Se a ambiguidade é um traço comum às narrativas,
três temas são abordados com frequência no livro: identidade, estigma e sexo. “Quase
ela”, por exemplo, é um conto sobre identidade e, como consequência, a passagem
do tempo. “Somos feitos mais de acasos ou de escolhas?”, a protagonista se
pergunta, enquanto prepara um Nescau. Um questionamento shakespeareano que
sempre acontece nesses momentos triviais do dia a dia. (Sou breve em relação à
trama dos contos porque quero preservar as surpresas.) Perceba que o
questionamento é sobre se somos mais de um que de outro, sem binarismos,
mantendo a ambivalência que nos faz.
Eu conheci a autora pessoalmente, anos atrás
(escrevemos para esta mesma revista virtual). Conversamos muito sobre
literatura e sobre por que escrever ficção. Passando pela conclusão óbvia do
porquê literário (enriquece a vida e deve ser feito, ponto), ela já tinha uma
visão muito clara do como fazer literatura. “O texto tem de ser claro”, dizia.
Antes que seque o comprova, pois tecnicamente o livro é
impecável. Barcellos é jornalista, experiente em entrevistar pessoas, observar
personagens reais, reconstruir histórias através de vários pontos de vida. A
autora já era familiarizada com escrever textos antes de publicar suas primeiras
ficções, e esta sentença não é a redundância que parece. Primeira pessoa,
terceira pessoa, protagonista mulher, protagonista homem, Antes que
seque tem de tudo e tudo mantém a qualidade, embora o forte criativo sejam
as personagens femininas.
Sobre as quais, aliás, os temas que mencionei incidem com
mais força. Identidade, estigma e sexo. “À moda antiga”, outro conto
arrebatador, contém os três temas, num aceno a Nelson Rodrigues, mas narrado de
forma que só alguém experiente na interseção entre viver, escrever e ser mulher
saberia. Mais: narrado de forma penetrante, soberbo em cada detalhe. Como diz
outra personagem de Barcellos, “A vida é uma sucessão de detalhes bem
planejados, qualquer mulher sabe disso. São eles, os detalhes, que vão formar
um todo harmônico, início, meio e fim, ordenar e imprimir o efeito estético que
se busca ao final.” Toda esta perícia está em um dos meus contos prediletos, “À
revelia”.
Uma variada galeria de personagens, e não de
impressões de personagens. Narrativas estruturadas, e não flutuações sobre
temas. Prosa elegante. Tudo que eu espero de um livro de contos está em Antes que seque.
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