“Não. É bem óbvio”, ela disse, esperando que eu correspondesse à colher de chá que ela, nesta ocasião, servia aos meus dons divinatórios. Eu, tentando esconder que, para não a decepcionar, pensei, na velocidade da luz, em mil nomes que gostaria óbvios (além de Mel Gibson), acabei soltando, hesitante e sem fé, o nome de Amy Winehouse.
“É, ela mesma. Acharam ela morta em casa. Ainda não sabem a causa [da morte]”, ela disse. Eu lia a novela A morte do leão quando Clarice me interrompeu.
Era uma morte provável, a julgar pelas últimas aparições dela na mídia. Uma consumidora voraz de muitos, vários tipos de produtos pouco saudáveis. O efeito deste consumo era explícito. A Amy do videoclipe de Fuck Me Pumps, de 2004, era muito diferente de qualquer Amy dos últimos doze meses – meses que, para ela, não é desumano assumir, foram mais uma contagem regressiva para o fim do que para o renascimento. Ninguém que tenha vivido intimamente com substâncias tão tóxicas sairia indene. Recuperar-se integralmente destes vícios é um processo de radicalização contínuo e a longo prazo: todos os dias, sem exceção, até o fim da vida, sob a vigilância de um autocontrole impecável, é feita a escolha de jamais, nunca incorrer em hábitos passados. Pelos registros dela a que assistíamos Internet afora, aquela alma já havia partido há tempos. Infelizmente, ela não nos permitiu pensar diferente; ela nos deu a certeza de que morreria cedo.
Agora Amy é morta. Nas 48 horas seguintes ao anúncio de sua morte, ela dividiu o noticiário internacional com os atentados na Noruega e o nacional com a final da Copa América. Canais abertos e fechados, estrangeiros e domésticos, veicularam shows da cantora e preparam especiais sobre a vida e a obra dela, com depoimentos, antigos e recentes, de amigos, fãs, artistas, conhecedores de música e jornalistas. Preparam, também, (alguns até já exibiram) programas sobre os malditos mortos aos 27 anos de idade, grupo no qual Amy foi enquadrada; mas estes programas são açúcares televisivos para alimentar idiotas malnutridos. Amy Winehouse morreu. Há quem diga que a desgraçada vida que ela teve obscureceu a obra que ela deixou. Há também quem fale que aquela vida foi o que criou seu legado musical. Há os felizes, que desconhecem a morta, o que ela fez e o que pensam dela. Há, no entanto, quem goste de música. É a música que interessa. A música dela. A melhor voz deste novo século. A cantora e compositora mais talentosa entre suas contemporâneas. Apenas dois álbuns, mas dois álbuns que valem muito. Uma pena termos sido privados de um talento como o dela.
2 comentários:
Mais um excelente texto do amigo.
Eu não sou fã particular deste estilo (apesar de não me incomodar). Mas é impossível não se render ao talento da Amy Winehouse. A mulher cantava (e compunha) pra cacete mesmo.
O que ela fez da vida é (ou era) um problema dela e dos entes e amigos próximos. Eu não tenho nada a ver com isso. Não vou transformá-la em santa, como muitos têm a mania de fazer quando um famoso morre, tampouco vou chutar a obra dela, curta mas expressiva.
Sua música é uma herança maior do que qualquer polêmica para esse mundo...
Ao menos na minha visão pessoal de mundo.
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