17 de dezembro de 2025

nota_227: Domínio da escória

Estou relendo Doutor Fausto. Um trecho do romance que me faz pensar no conflito, que há aqui no Brasil desde sempre e que se fortaleceu nos anos da presidência de extrema-direita, entre o mundo dos privilegiados e o campo progressista: 

Verdade é que certas camadas da democracia burguesa pareciam e parecem também hoje merecer o que acabo de chamar de domínio da escória, dispostas como estão a pactuar com ele, a fim de conservarem por mais tempo seus privilégios. Porém, para exercerem esse domínio, surgiram líderes que, assim como também eu, rebento da mentalidade humana, consideravam-no o supra-sumo da desgraça que se pudesse e devesse impor à Humanidade. Levaram, portanto, seu mundo a lutar até à morte contra ele. Nunca seremos capazes de expressar toda a nossa gratidão a esses homens, e sua ação demonstra que a democracia dos países ocidentais, não obstante toda a obstinação com que suas ideias de liberdade se opõem às necessárias inovações, trilha, por essência, o caminho do progresso humano, da boa vontade de aperfeiçoar a sociedade, e tem, segundo sua natureza, a força indispensável para renovar, corrigir, rejuvenescer e finalmente instaurar condições de vida mais equitativas... 

Doutor Fausto, Thomas Mann, 1947 (tradução de Herbert Caro; Nova Fronteira, 3ª edição, 14ª impressão).

PS: Neste trecho, Serenus Zeitblom, o narrador, está elogiando os Aliados por estarem impondo uma derrota (mais uma) aos alemães ao momento em que ele escreve a biografia do seu amigo, Adrian Leverkühn. Na cronologia do romance, Zeitblom está em 1944. 


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