Publiquei primeiro no Substack.
Como professor, eu tenho uma preguiça enorme em ouvir opiniões sobre educação. Principalmente depois de uma reunião de pais. Se você não é docente, evite falar de educação, é melhor.
Ser professor envolve estar sempre aprendendo, buscando, cultivando saberes, e ouvir as pessoas é parte deste processo ininterrupto de crescimento pessoal e profissional, mas é justamente aí que bate o cansaço. Há um consenso, mesmo que rarefeito, de que a educação é a coisa mais importante na construção de uma sociedade melhor e de seres humanos mais humanos, mas, ao mesmo tempo, há uma constante depreciação dos professores como profissionais. Esta dicotomia gera o fenômeno de que todos sabem, meio que naturalmente, a importância da docência, e, por isso, se sentem confortáveis para pitaquiar à vontade sobre o assunto. Até aí tudo bem, o problema é que o outro componente deste fenômeno é o descrédito aos próprios professores, que tem se intensificado com a toxicidade das redes sociais e a propaganda anti-humanista das extremas-direitas. Diante disto tudo, não bastassem os incêndios diários com quais temos de lidar no dia a dia escolar, depois de conversar com os pais dos alunos, uma das últimas coisas que um professor vai querer é que alguém mencione “educação” perto dele.
Uma vez por bimestre, há a reunião de pais e professores na escola onde trabalho. É quando entregamos os boletins aos pais. Um grande evento. Não é a única ocasião em que encontramos os pais dos alunos. Alguns costumam frequentar a escola porque o nosso dia a dia é feito de um ininterrupto entra e sai de alunos, pais e polícia. Embora haja mais de uma chance de encontrar os responsáveis, é na reunião de pais que ou lavamos a roupa ou entregamos os louros, porque é quando podemos conversar sobre o crescimento do estudante, a missão primordial da docência. É nesta ocasião que temos a oportunidade de estender aos responsáveis tanto as broncas quanto os elogios e também a de exercer outras duas das muitas facetas da nossa profissão, a de terapeutas e a de sacos de pancadas. Durante a reunião de pais, há um desfile de alguns Brasis bem à nossa frente e nós interagimos com cada um deles. Neste evento, explicamos como tentamos educar os filhos e o porquê de eles terem ou não ido bem na nossa disciplina. Durante esta interação, tentamos educar os próprios pais dos estudantes, para que os filhos ou melhorem ou continuem o bom trabalho, enquanto somos alvejados ou por confissões ou por críticas, umas e outras nem sempre fáceis de ouvir, mas que acabam ajudando a enxergar melhor os contextos familiares dos alunos.
Antes, um pouco de contexto. Sou professor da rede pública no Distrito Federal, uma unidade da federação que não é exatamente famosa por tratar bem os professores. O Distrito Federal é composto por 35 regiões administrativas, que é como são chamadas o que fora do DF ainda são conhecidas como "cidades-satélites". As regiões administrativas são como bairros ou distritos. Não têm vereadores nem prefeitos eleitos, mas administradores indicados pelo governador. Há regiões que precisam mais, outras que precisam menos da capital, Brasília. Muitas regiões são como cidades-dormitório: são mais habitadas enquanto os moradores dormem nelas, pois passam o dia trabalhando e/ou estudando na cidade-núcleo. Dentre estas 35 regiões, há uma chamada São Sebastião, que é onde trabalho.
São Sebastião já foi uma cidade urbanisticamente mais hostil, feita de muito concreto e de um poeirão vermelho que nunca acabava, mas hoje, mesmo com concreto e poeira, tem mais verde e alguma estrutura. Uma feira popular incrível, onde dá pra comprar só o natural e saudável, pois a região tem área rural circundante com agricultores que cultivam de um tudo. (Alguns alunos meus da área rural já mataram aula para ficar se exibindo na frente da escola, a cavalo.) Um centro olímpico e paralímpico, com programas para todas as idades e onde treinam atletas paralímpicos profissionais (a mãe de um ex-aluno era atleta de badminton). Corpo de bombeiros, que tem uma escola própria. Um restaurante comunitário, presente em quase todas as regiões administrativas do DF e onde as refeições custam R$ 1,00. Não tem hospital local, mas duas unidades básicas de saúde. Enfim, uma cidade, bairro, distrito, região administrativa com aproximadamente 120 mil habitantes, onde as 27 escolas da região ainda não dão conta da quantidade de alunos, nem da qualidade de alunos (mais sobre isso adiante). Há ainda, na cidade, pelas estimativas apuradas do meu olhômetro, uma relação quase que de dois para um entre “distribuidoras de bebida” e igrejas evangélicas. As distribuidoras estão ganhando e eu não sei se isso é bom ou menos ruim.
Outro dado sobre a cidade é que ela fica perto do Complexo Penitenciário da Papuda, a famosa Papuda. Aprendi há pouco, aliás, de onde vem o nome “Papuda” com uma colega professora de geografia: a fazenda desapropriada onde hoje fica o complexo pertencia a uma família e nesta família havia um senhora com bócio, que, como ditava o bullying raiz, era conhecida como “papuda"; daí que a fazenda da família, por sinédoque, era a “fazenda da papuda".
A Papuda fica a vinte minutos de corrida da minha casa. A primeira parada de ônibus disponível para quem sai da penitenciária fica exatamente em frente ao meu condomínio. É frequente eu chegar ou sair de casa e ver os reeducandos na parada de ônibus. Havaianas, bermuda e camiseta brancas e cabeça raspada. Eu sempre fico curioso para saber se um deles seria o pai de algum aluno meu, porque é um fenômeno frequente famílias se mudarem para São Sebastião para ficarem mais próximas ao parentes encarcerados. “Meu pai vai sair amanhã, professor", já ouvi isso mais de uma vez, com variações, de alunos felizes por poderem encontrar os parentes. Também já vi os mesmos alunos tristes, seja porque os parentes que cumpriram o “saidão” tiveram que voltar para a confinamento, seja porque os parentes descumpriram a saída temporária e se tornaram foragidos, o que é uma falta grave e leva à regressão ao regime fechado. Ah, sim, a saída temporária é benefício de quem está no regime semiaberto e já cumpriu uma fração da pena. Para os alunos cujos parentes estão em regime fechado, a alegria está em visitá-los. Coisa que também me falam com alegria: “Vou ver meus irmãos, professor!”
Eu não tenho alunos cujos parentes foram presos por crimes como fraudes financeiras, lavagem de dinheiro, corrupção ou sonegação de impostos. Alunos que chegariam à escola de motorista, primorosamente tutelados para não verem os pais algemados na TV, quando isso acontece. Os crimes presentes na vida dos meus alunos são furto, roubo, tráfico, homicídio, latrocínio, feminicídio, estupro e estupro de vulnerável (esta listinha é baseada no que já soube por meio dos pais e responsáveis e dos próprios alunos). Alguns destes crimes só foram crimes porque a pele das pessoas envolvidas passava pelas variações de parda a preta. Fossem pessoas brancas, um furto seria um “mal-entendido”, o traficante seria um “jovem", você sabe. Além deste universo particular relacionado à Papuda, há o universo menos particular do crime em comunidades. Embora a região administrativa onde eu trabalhe não seja a mais violenta do Distrito Federal, ainda é um lugar perigoso. Eu diria moderadamente perigoso, com o perdão do oxímoro. Na porta da escola, sempre tem algum aluno sendo assaltado. Dentro e fora da escola, sempre tem aluno brigando. Toda a trama complexa que engendra a prática da violência em comunidades pobres também desfila na minha frente não só na reunião de pais, mas no dia a dia da sala de aula. Desigualdade socioeconômica, racismo estrutural, desemprego e subempregos, falta de acesso a serviços básicos, inclusive educação, tudo isso compõe um tecido radioativo com o qual as pessoas com quem eu passo o dia interagindo são obrigadas a se vestir.
Muito da radioatividade deste tecido tem a contribuição do discurso evangélico, segundo o qual a escola nem sempre é um bom lugar. Justo a escola, o único lugar plural que poderia salvar (sim, salvar) todo futuro cidadão.
Ainda no tópico contexto, mas de forma mais ampla, estamos em 2025, ainda. Uma era recém-pandêmica e hiperconectada. É possível sentir o estrago que a pandemia causou e o dano que as redes têm causado à cabecinha dos meus alunos. Quanto à pandemia, há os lutos e o isolamento (este, necessário); quanto às redes, há o declínio da concentração e o aumento do “umbiguismo". Tanto a falta de concentração quanto o ensimesmamento são problemas que os professores da velha guarda também relatam, são coisas meio que inerentes aos adolescentes, eu lembro como era com a gente na adolescência. Mas é que agora é diferente, mesmo, e eu não precisaria colocar aqui o prejuízo à musculatura cerebral que é uma pessoa de doze, treze anos (ou de qualquer idade) ter um smartphone não supervisionado à mão. Se é difícil para nós termos um controle relativo sobre nossa servidão digital, imagine para eles. Agora some o ópio das telas àquele contexto regional que descrevi antes.
Outra coisa ainda mais específica seriam os próprios casos dos alunos. As dinâmicas familiares de cada um somadas àqueles dois outros contextos do parágrafo anterior. O problema é que aí eu não terminaria de escrever este post nunca, nunquinha. Mas eu vou deixar aqui algumas sinopses dos enredos que nós acompanhamos durante o ano letivo e que pipocam à nossa frente durante a reunião de pais. Aqui vão alguns exemplos do que atendemos.
Por exemplo, o caso do menino que repetiu três vezes o mesmo ano porque a mãe prefere que ele fique em casa, no celular, assim ele não dá trabalho a ela, já que ele, na escola, além de não fazer nada, só arruma briga com alunos e professores; daí que, durante a semana, ele fica em casa, quieto, no celular, e no fim de semana vai à igreja com ela.
Por exemplo, o caso das irmãs, repetentes, que brigam toda a semana, e apanham, porque confiam que os pais “vão resolver”, como já "resolveram” uma vez: a mãe foi à escola bater na outra adolescente que havia agredido a filha delas, e bateu; daí que a polícia, que sempre aparece por lá, levou todo mundo para a delegacia.
Por exemplo, o caso da mãe, analfabeta, que precisa do filho, um menino do sexto ano, para fazer as coisas básicas do dia a dia, já que ela não sabe nem ler nem mexer no celular, e calhou do menino, por motivos evidentes, ser um aluno com baixo rendimento; daí que a mãe só apareceu à nossa mesa, na reunião de pais, porque a vizinha, mãe de outro estudante da mesma escola, disse a ela da reunião, já que o próprio filho, com a mochila abarrotada de advertências e comunicados por escrito, jamais disse a ela coisa alguma.
Por exemplo, o caso do menino “desafiador” que ninguém consegue controlar nem receber respeito porque, afinal de contas, foi rejeitado pela mãe, que o pariu aos treze anos de idade, não tem pai, que "abandonou" a menor que ele mesmo havia violado, e é criado por uma avó semialfabetizada que é dona de um “bar” (um barraco de zinco que vende cachaça) onde o menino, quando não está na escola, fica "trabalhando” e ouvindo impropérios da própria avó, como os que ouvimos dela para ele na nossa própria frente, já que ele é um estorvo para ela; daí que, embora eles não saibam, o melhor lugar para este menino é, sim, a escola (para este e para todos).
Por exemplo, o caso da menina do sétimo ano que recebia a cada quinzena as atividades dos professores, para fazer em casa, porque estava com vergonha de ir para a escola já que estava grávida; foi engravidada pelo irmão, que sumiu depois do estupro; daí que a tia ia buscar as atividades para ela na escola, atividades que a menina, é claro, não tinha condições desempenhar por completo, mesmo que tenham sido atividades adaptadas ao que, supúnhamos, ela poderia realizar.
Por exemplo…
Eu poderia continuar, mas já deu pra ter uma ideia. Estes são exemplos apenas dos casos em que os responsáveis, de alguma maneira e seja com que objetivo for, pisaram na escola e conversaram conosco. Há casos muito mais problemáticos do que estes que citei, mas nestes outros não há responsáveis minimamente responsáveis. Seria assunto para outro post, se eu tivesse coragem para isso. Mas esses snippets de enredos servem para ilustrar que nosso trabalho também é o de educar os pais.
Por outro lado, eu seria leviano se não dissesse que há os bons enredos. Há um punhado deles por turma, mas não chegam à maioria. Os melhores alunos nunca são a maioria, seja qual for o contexto, basta observar seu próprio histórico escolar, do primeiro ano ao ensino superior, se for o caso. Mas é importante deixar isso aqui registrado pelo seguinte motivo: os melhores alunos, que são minoria, têm os pais mais presentes, o que também explica por que são os melhores. No contexto da reunião de pais sobre o que estamos falando aqui, num chutômetro baseado em amostras empíricas minhas e dos demais professores, os pais da minoria boa perfazem quase a metade dos pais presentes à reunião. Sobre estes pais, muitos têm narrativas de vida bem difíceis, como é de se esperar por todos os contextos que já expus. Narrativas difíceis a ponto de, por exemplo, um pai se orgulhar de o filho caçula (de não lembro quantos, alguns já mortos) ter conseguido “se formar”, ou seja, concluir o nono ano e se formar no ensino fundamental. O que é, sim, um exemplo inquestionavelmente vencedor. Esta outra amostragem, a de bons alunos de pais presentes, ajuda a manter a chama da docência acesa, mesmo que todo professor, quase ou todo dia, pense se não valeria mais a pena trocar a chama da docência pelo calor de qualquer outra área profissional.
Há um dilema peculiar aqui: os alunos desafiadores (não os de baixo rendimento, os “maus alunos" mesmo, sem eufemismo) são os que mais precisam da escola, são os que mais precisam de nós, professores; por outro lado, são os que mais nos exaurem, como se a docência já não fosse exaustiva o suficiente, porque com eles nós acabamos atuando como pais postiços, familiares vicários, terapeutas semiqualificados, pseudoguias espirituais e, quando dá, professores. Já os alunos com quem nos sentimos realizados, os alunos para quem nossas atribuições se afunilam no que seria, em teoria, nossa única função, a de educar mediante o conhecimento que estudamos e que é culturalmente relevante das nossas disciplinas, já estes alunos não precisam tanto assim de nós. E isso é bom, porque há uma família por trás deles cumprindo o próprio papel da família. Quando os pais presentes dos bons estudantes sentam à nossa frente na reunião, já chegam com uma pose que me deixa encantado: a pose de que são eles, os pais, que irão receber os elogios. O que é verdade, mesmo quando só nos referimos aos estudantes.
Ninguém cumpre tão bem o papel de família quanto os familiares de alunos inclusivos e nós temos muitos alunos assim. As salas inclusivas e de inclusão reversa têm mais vantagens do que desvantagens. É bonito ver a mágica da interação social e do aprendizado mútuo acontecendo. Há assédio e bullying, sim, mas estamos aqui para isso e as coisas fluem daquele jeito acidentado, como uma tromba d’água. Mas nada disso é fácil (nada em profissão alguma é fácil, principalmente da vida dos professores) nem merece ser glamourizado. Quando eu interajo com os pais alunos inclusivos, eu sempre vejo aquela imagem descrita no romance O filho eterno, do Cristovão Tezza, a imagem dos pais sempre de cenho franzido e expectativa controlada, tentando controlar a ânsia de ver o filho conseguindo realizar alguma atividade básica. É invariavelmente este o filme projetado à minha frente quando estes pais vêm conversar sobre os filhos.
Agora, um exercício. Imagine que você esteja numa sala de sétimo ano com aproximadamente trinta e cinco alunos. Se é sétimo ano, eles têm de doze a treze anos. Destes, dois não sabem nem ler nem escrever, chegaram até aqui por mágicas burocráticas que demoraria a explicar e eu mesmo não saberia dizer direito. Uns três estão no espectro, em graus variados, cada um com seus acentuados universo particular e tipo de interação. Quase metade é naturalmente indisciplinada, variando da indisciplina do tipo conversar durante a aula até brigar com faca em sala (eu mesmo já separei várias brigas, com e sem faca). Além desta, você tem mais catorze turmas (meu caso), todas com configurações bem semelhantes. Você iniciou o ano com um conteúdo programático bem bonito e todo em consonância com a Base Nacional Curricular Comum. Você se tornou um professor porque você quer compartilhar aquele assunto de que você, que você estudou por anos. Se você é um professor de ciências, quer falar do espectro eletromagnético e por que o céu é azul, e muito mais. Se você é professor de português, quer usar as músicas do Caetano Veloso para falar de figuras de linguagem, e muito mais. Se você é professor de história, quer falar de Zumbi e por que ele é importante na história do nosso país racista (sobretudo porque a maioria dos seus alunos é negra), e muito mais. Não importa, se você é professor, você quer — que loucura! — educar. Você quer aprender e compartilhar conhecimento com todos seus estudantes. Você elabora seus planos de aula, as adaptações dos planos de aulas para cada turma, as adaptações para cada estudante dentro de cada turma. Você quer muita coisa para suas centenas de alunos, enquanto desenvolve um relacionamento com eles, porque nunca é "vocês aí" e "eu aqui”. É mais para “nós onde der pra ser”. Mas, ao final do ano, tudo que você quer é férias. Se alguém destes quinhentos alunos aprendeu a lavar a mão antes e depois de comer, já é lucro. Começará tudo de novo no ano seguinte.
A vida docente, neste contexto que do qual tentei mostrar uma parte aqui, me lembra uma frase do Doutor Fausto, de Thomas Mann (com a tradução de Herbert Caro): “O que tento expressar é uma mescla de sentimentos singularmente dolorosa: a mescla de urgência e inutilidade.”
É só não falar de educação perto de um professor.
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