Publiquei primeiro no Substack.
Por alguns meses, eu convivi com centenas de russos e alguns franceses, que me acompanharam a todo lugar. Gostaria que você também tivesse as mesmas companhias.
"O que é isso? É a Bíblia?" foi uma das perguntas que ouvi enquanto lia Guerra e Paz. É impossível não ser interrompido quando você lê em público um livro desse tamanho. A curiosidade alheia é inevitável e isto precisa ser aceito como parte da experiência de leitura. "Que bíblia é essa?", outra variação, a mais frequente, vinda de todos os tipos de perguntadores. Ler em público não é um fetiche consciente meu, mas eu sempre carrego comigo, e aposto que você também, qualquer coisa que esteja lendo no momento e este livro, em particular, é um trambolho que precisa viver com você todos os momentos do dia para a leitura ser concluída. Claro, não é só pela extensão da leitura que você precisaria estar com ele o tempo todo, mas também porque o livro é maravilhoso, não tem como deixá-lo de lado. A tal ponto que eu o li em cenários bem distintos -- e isso atraiu todo tipo de intromissões. Mas eu aposto que todos os que me interromperam usando a Bíblia como referência tinham certeza de que não era a Bíblia que eu lia. Ou porque me conheciam pelo menos um pouquinho, ou porque o próprio livro não tinha o jeitão de bíblia, a não ser pelo tamanho. Quando uma pessoa está lendo a própria Bíblia cristã em público (tradicionalmente com B maiúsculo), esta pessoa é evitada, seja por respeito, seja por melindre, ou os dois. O que não acontece quando a pessoa está lendo uma outra "bíblia".
"Pra que isso tudo, professor?", alguns alunos se espantavam quando viam o leviatã no meu braço ou sobre minha mesa, e eu nem precisava estar lendo para eles darem voz ao assombro. Não que eu goste de ser interrompido enquanto leio, não mesmo. Mas isso vai acontecer, infelizmente, num caso de um livro como este. Uma das interrupções de que menos desgostei foi a de um colega professor: "Um livro desse tamanho... é alguma promessa que você está pagando?". Eu ri. Todos rimos, na sala de professores. Só que a pergunta me tocou, porque, sim, era uma promessa.
Longe do sentido de penitência implícito na pergunta do colega, esta leitura era uma promessa que eu pagava, já tarde, por um punhado de motivos. Um, Liev Tolstoy é o russo que mais li. Dois, também é um dos quais mais gosto. Três, como literatura é algo próximo de uma religião pessoal na minha vida (duas das minhas tatuagens são homenagens a Moby Dick e Riobaldo), esta bíblia era ainda uma leitura necessária. Quatro, os clássicos precisam ser lidos e relidos. Ponto. Reler quando adulto os clássicos que li na adolescência (Anna Karenina, Madame Bovary, Grande Sertão: Veredas etc) foi como recriar todo meu mundo interior. Perdão pela hipérbole, mas imagino que você também seja assim com os livros de que gosta. Há releituras na minha lista de dívidas (Ulysses, O Homem Sem Qualidades, Paradise Lost etc) e já antevejo com simpatia a sensação de "reembaralhamento do eu" (expressão do Heinz Kohut que eu vou usar despudoradamente fora do contexto e do sentido originais).
Agora, voltando às dívidas e promessas de leitura, Guerra e Paz era uma leitura inédita. Era uma dívida mesmo. Em nenhum momento da minha adolescência eu tive vontade ou coragem de encarar este Tolstoy -- e olha que eu tive uma adolescência bem comprometida com a leitura. A tal ponto que meu primeiro emprego, aos quinze anos, foi num sebo: frequentava tanto o lugar que acabei sendo contratado. Neste sebo, que existe até hoje em Brasília, jovens bibliófilos, e por jovens bibliófilos eu quero dizer septuagenários em diante, costumavam ser enfáticos sobre a importância de ler os clássicos, alguns deles radicais ao dizer que só os clássicos mereciam ser lidos. Todo sábado pela manhã uma gangue de velhinhos se reunia para lamentar o fim do romance e elogiar os imortais da literatura, imortais que eu anotava num caderninho e de quem saía à caça pelas estantes quando não havia clientes. Não concordava com os radicalismos de que "o romance morreu" e "só os clássicos é que prestam", mas a noção de que ler os clássicos -- o que nos acostumamos a chamar de cânone -- é fundamental ficou comigo desde então. Hoje, a literatura que mais leio é a brasileira contemporânea, mas aqui e ali releio ou leio o que tradicionalmente é tido por "clássico". Eu não consigo emendar mais de dois livros contemporâneos sem que um clássico esteja por perto na fila de leitura. O mais recente foi Guerra e Paz. É sobre ele este comentário que você está lendo, que também é uma declaração de... Bem, é sobre uma experiência de leitura que eu tive, e que, espero, desperte em você o interesse em ler as vidas de Pierre, Natasha, Andrey, Nikolay, Sonia, Maria, Denisov...
Como ficou explícito nos primeiros parágrafos, parte desta experiência de leitura envolve não ser discreto. É impossível, as pessoas vão comentar aquele calhamaço com você. Então, comecemos por este ponto, o objeto livro, o chamariz.
A edição que eu li foi a da Penguin Classics, num único volume, com tradução de Anthony Briggs. War and Peace. Não existe em português brasileiro uma edição de Guerra e Paz em volume único. As edições que valem a pena estão divididas em dois volumes, e elas valem muito a pena. Uma é a da extinta Cosac Naify, dois tijolinhos primorosos que podem chegar a valores pornográficos nos marketplaces. Claro, papel bíblia e capas de couro. Sem dúvida eu preferiria ler a bíblia do Tolstoy em papel bíblia, mas eu sou professor e eu consumiria um salário inteiro na aquisição destes volumes. A outra edição, também em dois volumes, é da Companhia das Letras, não tão luxuosa mas exemplar. É capa dura e maior em tamanho que a da Cosac. Maior em tamanho, mais pesada também, mas não custa um rim, é acessível. Ambas edições são com a elogiada tradução de Rubens Figueiredo, diretamente do russo. Há outra edição acessível no Brasil: a de bolso em quatro volumes da L&PM, com tradução também direta do russo por João Gaspar Simões, mas esta tradução é em português europeu. Não li nenhuma dessas edições, mas indicaria as que têm a tradução de Rubens Figueiredo, cujo trabalho já conheço pela tradução primorosa que fez de Anna Kariênina e que trilhou o mesmo caminho da de Guerra e Paz: foi publicada pela Cosac Naify, republicada pela Companhia das Letras.
Eu tenho dois, talvez três argumentos para ter escolhido a edição britânica e para poder recomendá-la, caso você leia em inglês. (Eu sou professor de inglês.) O primeiro é o de que qualquer boa tradução serve se você não vai ler o original. Há por aqui a do Rubens Figueiredo. Há, pelo mundo anglófono, a já mencionada do Anthony Briggs, que eu adorei, e a do casal de tradutores Richard Pevear & Larissa Volokhonsky, também super elogiada, publicada pela Vintage, se não me engano. Para ver uma comparação direta das traduções de Briggs e Pevear & Volokhonsky, este link aqui pode ser útil. A tradução do Briggs, na verdade, não foi minha primeira opção. Quando decidi ler Guerra e Paz, estava determinado a comprar uma edição que fosse em volume único e a primeira que me apareceu, na extinta Livraria Cultura, foi a da Dover, com tradução de Constance Garnett. Só depois que cheguei em casa com o livro é que pesquisei sobre Garnett e cheguei ao artigo de David Remnick, na New Yorker, sobre as arengas entre os tradutores contemporâneos dos russos clássicos. No artigo, o trabalho de Garnett é criticado por falta de comprometimento: trechos inteiros das obras originais eram subtraídos na tradução e os autores ficavam parecidos demais. Tolstoy e Dostoievsky soavam iguais, algo impensável. O artigo é de 2005, por volta de quando eu comprei a tradução de Garnett, e a tradução de Briggs foi publicada naquele mesmo ano. O que me levou a ter, ao mesmo tempo, duas traduções em inglês encalhadas em casa, uma esperando ser doada, a de Garnett, outra esperando ser lida, a de Briggs. Que é uma das que eu recomendo, caso não leia russo.
O segundo argumento para ter escolhido esta edição da Penguin Classics é que ela é volume único. Esta edição tem os dados necessários para este tipo de livro: mapas das campanhas de guerra e das batalhas; árvores genealógicas e lista de personagens, muito útil quando temos mais de quinhentos personagens com nomes russos; notas explicativas, com todas as referências a personagens reais, tradições locais e outras obras mencionadas pelo narrador. Tudo isto é necessário, sim, mas ser um só volume foi o que mais contou pra mim. Todo aquele universo estaria inteirinho na minha mão, do início ao fim, andando comigo. Carregar consigo um universo inteiro acentua a conotação de "bíblia" que este livro tem. Num só corpo impresso, eu tenho as vidas de Pierre, Andrey e Natasha. Eu sentiria como se os tivesse despedaçado caso a edição fosse em mais de um volume, como me senti lendo Os Miseráveis em dois. Eu pude ir e voltar ao longo de todos os arcos narrativos, tanto com as notas do tradutor como com as minhas. Eu pude fazer anotações a lápis para refazer a trilha de certos eventos ou delinear o caminho pelo qual passou a transformação de certos personagens. Por exemplo, e sem spoilers, a iluminação de Andrey Bolkonsky, uma das passagens mais incríveis da literatura, acontece da página 1090 à 1095, mas é na página 27 que ele, conversando com Pierre Bezukhov, diz uma das frase mais famosas do livro e na qual todos nós já esbarramos noutras leituras: "Se todos lutassem apenas por suas convicções e nada mais, não existiriam guerras". Depois de me recuperar do que acontece a partir da página 1090, eu pude ver as minhas anotações sobre a evolução no arco do Príncipe Andrey de forma retroativa, até chegar àquela soirée, no início do livro, onde ele conversa com Pierre, e pude reviver a mudança dele de forma, digamos, imediata. Outros exemplos seriam a relação entre Pierre e Dolokhov (mas não vou falar sobre isso), ou a carta que Sonya envia para Nikolay, na página 1064, que é a culminância do que começou mais ou menos na página 578 (este, um desenlace de fazer chorar). Com o livro em volume único, é possível fazer a trilha da leitura com as suas próprias anotações. Aí está meu segundo argumento para indicar esta edição.
O possível terceiro argumento para indicar a edição da Penguin Classics é que eu gosto de ver os livros organizadinhos na estante, a capa preta e a cinta branca, com o nomes dos autores em vermelho. (Eu tenho ascendente em Virgem.) Mas, motivos estéticos de lado, há a questão do peso: os livros da Penguin Classics são muito leves, mesmo este com quase 1400 páginas. São ideais para portabilidade. A qualidade da encadernação é outro ponto crucial, pois nunca vi um livro Penguin se fragmentar. Quando eu estava relendo Moby Dick na edição maravilhosa da Cosac Naify (tradução de Irene Hirsch), a capa dura e o peso, e o tamanho, atrapalhavam um pouco a leitura no ônibus. Nunca tive esse problema com os livros da Penguin.
Eis os meus motivos para ter escolhido esta edição e para lhe fazer esta indicação. Se peso não for um problema para você, a edição da Companhia das Letras, com a tradução do Figueiredo, é perfeita. Esta edição, inclusive, vem com um posfácio de Isaiah Berlin sobre Tolstoy.
Agora, que livro é Guerra e Paz? Para encurtar a conversa, é um romance. É a resposta mais prática e não de todo equivocada. É um romance como outros lançados por volta da mesma época? Não, não é. Tampouco é um romance que se pode usar como exemplo deste formato. Tolstoy começou a publicar a narrativa em partes, na revista O Mensageiro Russo, entre 1865 e 1867, e a publicou como livro em 1869. Contemporâneos ao livro de Tolstoy estão Crime e Castigo, de Dostoievsky, também publicado em partes na mesma revista e um grande exemplo do formato romance, e Uma Educação Sentimental, de Gustav Flaubert. O mesmo Flaubert, dez anos antes, havia publicado um clássico da arte do romance, Madame Bovary, e um ano depois de Tolstoy publicar Guerra e Paz em livro apareceu mais um exemplar do mesmo formato narrativo: Middlemarch, de George Elliot. Que para muitos é o exemplo lapidar do romance. Ou seja, um pouco antes, à mesma época e um pouco depois, há exemplos padrão da narrativa longa, todos canônicos, mas Guerra e Paz difere de todos eles. Mesmo assim, eu vou com a maioria e digo que Guerra e Paz é um romance, porque é o único termo possível.
O próprio Tolstoy, aliás, não considerava o livro dele um romance. Como está na biografia de Tolstoy por Rosamund Bartlett:"[Tolstoy] enfrentou a traiçoeira pergunta acerca do gênero do seu livro, oferecendo uma definição que ficou famosa e que apesar de ser citada à exaustão não é necessariamente útil: 'Que vem a ser Guerra e Paz? Não é um romance, muito menos um poema [narrativo], e não é sequer uma crônica histórica. Guerra e Paz é o que o autor quis e pôde exprimir pela forma como o exprimiu'. Justificando sua aparente falta de respeito pelas formas literárias europeias convencionais, [Tolstoy] acertadamente argumenta que 'A principiar por Almas mortas, de Gógol, e a acabar com Recordação da casa dos mortos, de Dostoievsky, não existe no período moderno da literatura russa qualquer obra artística em prosa que se eleve um pouco acima da média que se haja submetido à forma do romance, do poema [narrativo] ou da novela.' [Tolstoy] também aborda outros pontos de controvérsia, explicando por que em seu livro tanto os personagens russos como os franceses falam ora russo, ora francês, e empreende uma robusta defesa do direito do artista de divergir dos relatos históricos ao evocar eventos passados." (Tolstói, a biografia. Rosamund Bartlett, tradução de Renato Marques. São Paulo: Globo, 2013.)
Se Tolstoy não considerava o livro dele um romance, bem, isso é com ele. Mas é um livro que tem muitas peculiaridades quanto à forma, sim. Não está de acordo com as "formas literárias europeias convencionais". Por exemplo, tudo o que é literatura no livro é narrado em terceira pessoa onisciente, técnica na qual Tolstoy é mestre, e, enquanto literatura, o livro é tudo o que se espera de um clássico. Porém, já próximo ao final da narrativa (página 1261), enquanto são feitas considerações sobre a maneira como Napoleão e Alexandre I agiram sobre e durante os eventos descritos no livro, este narrador onisciente dá voz ao próprio Tolstoy, em primeira pessoa, que diz:
"Mesmo que eu veja de forma positiva a sobrevivência da casa do meu pai na Moscou de 1812, ou a glória do exército russo, ou o sucesso da universidade de Petersburgo e de outras universidades, ou a independência da Polônia, ou a supremacia da Rússia, ou o equilíbrio de poder na Europa, ou um tipo peculiar de avanço no Iluminismo europeu que atende pelo nome de progresso, eu estou propenso a acreditar que a atuação de qualquer figura histórica estava destinada a algo além destas coisas, a objetivos mais amplos, além da minha compreensão."
Quando eu li o trecho acima, não me pareceu uma simples quebra de quarta parede. Ele quebrou a quarta parede, acendeu as luzes do teatro e fez os atores trocarem de figurino -- tirando os uniformes militares da Batalha de Borodino e vestindo as roupas de gala do casamento de Pierre Bezukhov -- na frente da plateia, o leitor, que ouve o elenco conversando sobre como ganhar milhas no cartão de crédito. Daí "ele", o narrador ou Tolstoy -- tanto faz --, apaga os luzes e o leitor volta à encenação com as bodas de Pierre. Outro exemplo, talvez menor mas não menos peculiar, do formato próprio do livro é que mesmo o narrador onisciente tem um lado claro na narrativa, pois se refere ao exército russo sempre por "nosso exército".
O trecho que transcrevi acima (traduzi do inglês, perdão caso haja alguma perda de sentido) trata de História. Durante todo o livro, ficou evidente para mim que a leitura mudava muito de sabor quando era literatura e quando era historiografia. Não só Guerra e Paz é um romance histórico, com personagens e eventos reais, como é um romance que pensa sobre como escrever a História, o aspecto historiográfico do livro. A "filosofia da História de Tolstoy" é um aspecto importante do livro, sobre o qual Isaiah Berlin escreveu no ensaio O porco-espinho e a raposa (ensaio este que não foi escrito para ser levado tão a sério, mas como um exercício intelectual). Não é algo que eu pretenda comentar aqui, mas seria injusto não falar absolutamente nada sobre isso. Então, antes que eu volte a falar apenas de literatura, vou falar um pouco sobre essa "filosofia da História de Tolstoy", mas somente o necessário para não afugentar ninguém do interesse em ler Guerra e Paz.
Tolstoy é muito repetitivo com as passagens historiográficas do livro. As mesmas ideias são mencionadas ciclicamente, sendo a última rodada o epílogo do livro, que é historiografia pura. A narrativa literária termina um capítulo antes, com uma imagem lindíssima do Nikolay (não é spoiler, você não sabe a qual Nikolay eu me refiro). Nesse epílogo, que a gente lê no embalo, nada de novo é acrescentado, mas expandido e repetido. Disso tudo que é repetido, é possível pinçar duas ideias interligadas: uma, a de que a História é escrita por todos, as atitudes de todos, do mujique ao tsar, contam o mesmo para o fluxo do rio da História; a outra, de que neste mesmo rio da História as pessoas que mais concentram poder são, na verdade, as menos livres. Ambas as ideias estão exemplificadas na própria narrativa de Guerra e Paz: servos fieis e imperadores contribuem para o avanço da história, mas só aqueles é que têm uma relativa agência sobre si, enquanto estes, os poderosos, é que são guiados pelo momento histórico. Noutro canal, noutro momento e noutra linguagem, eu poderia falar mais sobre estes dois pontos, mas para fechar este parágrafo ilustrando estas ideias que eu pincei, uma imagem: se estivéssemos todos na praia, a história da praia seria contada por todos nós, os frequentadores, os vendedores de queijo-coalho, os ambulantes, os salva-vidas, os surfistas. De todo este elenco, apenas os surfistas estariam "na crista da onda". Mas eles, os surfistas, teriam uma janela muito resumida de atuação no tempo e no espaço, a onda, enquanto que, por exemplo, o vendedor de queijo-coalho poderia perambular por toda a praia e eu e você poderíamos mergulhar no mar independente de haver ondas ou não, podendo aproveitar um pouco das ondas ou não. Lembre que os surfistas tampouco impulsionam as ondas, mas são levados por elas. Os surfistas não são os "grandes homens" do filósofo Thomas Carlyle, os que fazem a História acontecer. A visão de Tolstoy é oposta à de Carlyle: os "grandes homens" não são "grandes" e são frutos do momento histórico que vivem e a este momento estão presos, tendo bem pouca liberdade de ação.
Como disse dois parágrafos acima, meu prazer com a leitura mudava quando o trecho era mais literário que historiográfico, por preferir o Tolstoy romancista ao Tolstoy historiador e porque este é menos bom que aquele. Porém, quando havia reflexões sobre a História amalgamadas ao arco de determinado personagem, real ou fictício, o livro era incrível. Ou seja, quando era narrativo, romanesco mesmo. Como mencionado por sua biógrafa, Tolstoy defendia o "direito do artista de divergir dos relatos históricos ao evocar eventos passados". O uso que Tolstoy fez das Guerras Napoleônicas para criar seu romance me fez querer saber menos sobre os mesmos eventos a partir de fontes históricas enquanto eu lia o livro, confesso. Porque a narrativa dele é melhor. Por exemplo, sempre que Napoleão Bonaparte aparece na história, a caracterização dele em tudo contrasta com o que estamos acostumados nos livros de História. Sempre que pode, o romance nos lembra do quão pequeno e mesquinho era o imperador, do quão limitado era o seu papel no fluxo da História (a universal, com H maiúsculo) e no desenrolar da história (a do livro, com h minúsculo). Isto está de acordo com a "filosofia da História de Tolstoy" que expliquei no parágrafo anterior. O narrador de Tolstoy tampouco economiza ironias e sarcasmos quando se refere ao imperador francês.
Veja esta antítese. Primeiro, o que Eric Hobsbawn diz sobre "o primeiro mito secular" do século XVIII, Napoleão Bonaparte (Hobsbawn nem havia nascido quando Guerra e Paz foi publicado, mas o que ele fala serve para o ponto que Tolstoy tenta provar e para a antítese que eu quero fazer):"O extraordinário poder deste mito [Napoleão] não pode ser adequadamente explicado nem pelas vitórias napoleônicas nem pela propaganda napoleônica, ou tampouco pelo próprio gênio indubitável de Napoleão. Como homem ele era inquestionavelmente muito brilhante, versátil, inteligente e imaginativo, embora o poder o tivesse tornado sórdido. Como general, não teve igual; como governante, foi um planejador, chefe e executivo soberbamente eficiente e um intelectual suficientemente completo para entender e supervisionar o que seus subordinados faziam. Como indivíduo parece ter irradiado um senso de grandeza, mas a maioria dos que deram esse testemunho, por exemplo, Goethe, viram-no no auge de sua fama, quando o mito já o tinha envolvido. [...] Pois o mito napoleônico baseia-se menos nos méritos de Napoleão do que nos fatos, até então sem paralelo, da sua carreira. (A Era das Revoluções, Eric Hobsbawm. Tradução de Maria Tereza Lopes Teixeira e Marcos Penchel. São Paulo: Paz e Terra, 2009.)
Agora, o que Tolstoy diz sobre como os historiadores trataram Napoleão?
O contexto acima é: muitos atribuem a derrota do exército napoleônico a esta manobra, a invasão da Rússia. Napoleão queria obrigar os russos a aderir ao Bloqueio Continental para atingir a Inglaterra. Os historiadores dizem que esta manobra atípica foi o motivo de sua queda, enquanto Tolstoy não vê nada de atípico. Tolstoy também diz:Historiadores falsificam por completo o passado quando (simplesmente porque as ações de Napoleão não foram comprovadas por eventos posteriores) eles representam Napoleão em Moscou como um homem cujo poder estava em declínio. Ele estava se portando exatamente como antes, e depois, em 1813, aplicando toda sua força e suas habilidades para fazer o melhor para si e para seu exército. As ações de Napoleão nesta época não foram menos espetaculares do que foram no Egito, na Itália, na Áustria e na Prússia. Não podemos atestar, com algum nível de certeza, o grau de genialidade que Napoleão mostrou no Egito, onde quarenta séculos desdenharam dele em sua sua glória, porque todas as suas famosas proezas naquele país nos foram descritas exclusivamente pelos franceses. Não podemos chegar a nenhum julgamento sensato do seu gênio na Áustria e na Prússia, uma vez que toda informação sobre suas conquistas naqueles lugares terá de ser extraída de fontes francesas e alemãs. E a inexplicável rendição de formações inteiras sem uma refrega, e de fortalezas sem cercos, tende a predispor os alemães na direção do conceito de gênio como a única explicação para a guerra da maneira como ela foi travada na Alemanha. Mas nós, graças a Deus, não temos motivo para invocar seu gênio para encobrir nossa vergonha. Nós pagamos pelo direito de olhar os fatos simples e honestamente de frente, e não vamos abrir mão deste direito.
Isto foi feito por Napoleão, o homem de gênio. Ainda assim, dizer que Napoleão destruiu seu próprio exército porque ele queria assim, ou porque ele era um homem muito estúpido, seria tão errado quanto dizer que Napoleão levou suas tropas a Moscou porque ele queria assim, e porque ele era um homem muito inteligente e de grande gênio. Em ambos os casos, sua contribuição individual, em nada maior que a contribuição individual de qualquer soldado raso, aconteceu de coincidir com as leis por meio das quais este evento estava sendo determinado.
Pois bem.
É curioso que Tolstoy tenha pesquisado tanto para escrever Guerra e Paz, tenha consultado tantas fontes e tenha conversado com veteranos da época, para tomar liberdades criativas gigantescas. Por exemplo, é consenso entre historiadores de que os russos, comandos pelo General Kutuzov, empregaram a tática de terra arrasada após a sangrenta Batalha de Borodino. Mas para Tolstoy os incêndios e toda a destruição de Moscou meio que "aconteceram". Ou talvez não seja tão curioso assim. O artista Tolstoy sempre falou mais alto que o historiador.
Na verdade, é sobre o artista que faço este longo comentário. É com ele que você deveria se encontrar enquanto lê Guerra e Paz, porque tudo que é literário no livro é bem feito.
Qual é a história do romance? "É sobre a Rússia", como diria a piada outrora popular. Eu vou tentar aqui uma sinopse como se você estivesse lendo sobre os lançamentos literários da semana.
Em Guerra e Paz, de Liev Tolstoy, nós acompanhamos a vida de quatro famílias aristocráticas russas durante as Guerras Napoleônicas: os Bezukhovs, dentre os quais Pierre é um dos protagonistas da narrativa; os Bolkonskys, entre estes temos o Príncipe Andrey; os Rostovs, meu núcleo preferido, de onde são Nikolay, Natasha e Sônia; e os Kuragins. Há outros personagens marcantes, no total de quinhentos e quarenta e tantos (Denisov, Dolokhov, Berg, Bazdeyev, etc), mas o romance gravita em torno daqueles. A história começa numa soirée, em julho de 1805, na casa de Anna Scherer, uma socialite casamenteira, amiga da imperatriz. Nesta reunião, na qual conhecemos dois dos principais personagens, os amigos Andrey e Pierre, os nobres estão discutindo, mais em francês do que em russo, o avanço inexorável do imperador francês, e comentam a guerra em meio a pompa e muito álcool. O contexto desta festa é o que vamos continuar encontrando ao longo do romance, porque é sob a ótica dos nobres que vamos ler a invasão da Rússia, mesmo quando acompanhamos camponeses e servos: estes estão ligados àqueles. De forma geral, o livro é sobre como a guerra irá impactar na vida de cada um desse meio milhar de pessoas.
Minha tentativa de sinopse vai parar por aí mesmo. Porque não há resenha tradicional capaz de dar conta de Guerra e Paz. O que posso fazer é falar de alguns aspectos do romance que mais me intrigaram e da experiência de leitura que o livro me proporcionou.
Uma das melhores características de narrativas longas, pelo menos para mim, é poder acompanhar os relacionamentos dos personagens, que acabam convivendo conosco também durante toda a leitura. Àqueles dois personagens, que começam o romance tão opostos, Andrey, o bem-nascido, cínico e arrogante, e Pierre, o bastardo, idealista e atrapalhado, soma-se Natasha Rostova, uma criança de treze anos em 1805, quando o livro começa. Este é o trio cujas vidas mais veremos ao longo do romance e é por causa deste trio que, sem querer dar um spoiler indireto, eu entendi quando Jonathan Franzen disse numa entrevista que estava tentando escrever o mesmo livro, Guerra e Paz, quando escreveu Liberdade. O desenvolvimento deste trio e dos demais personagens me acompanhou por meses. Uma convivência mesmo, intensa como só um mestre da literatura com uma narrativa longa pode proporcionar. Como brasileiro, diria que é semelhante à convivência que vemos entre telespectadores e personagens da novela das oito, que entram na nossa casa ou que encontramos nas conversas da padaria. Hoje em dia, essa semelhança ganhou um reforço graças ao mundo online, porque mesmo que ninguém que eu conheça estivesse lendo Guerra e Paz ao mesmo tempo que eu, nem eu estivesse fazendo parte de um clube do livro dedicado ao romance, eu meio que pude experimentar uma espécie de leitura compartilhada graças aos memes. A cada nova, digamos, "aventura" de Nikolai Rostov, irmão mais velho da Natasha e o personagem de que mais gostei, eu pensava "Nossa, eu preciso ver o que estão falando disso no Reddit"-- e, para evitar spoilers, depois que eu concluí a leitura eu pude conferir.
Pondo de lado as passagens historiográficas, e mesmo assim nem todas, para ser honesto, o romance é extremamente fácil de ler. A literatura do livro é... simples, genial. É um livro enorme e, ao mesmo tempo, não é palavroso. Tudo se encaixa. As cenas românticas são tocantes, as cenas espiritualizadas cumprem seu papel, as passagens sobre o cotidiano, tanto as domésticas quando as dos acampamentos de guerra, são surpreendentes. Todas as cenas de guerra e de caça são de uma cinematografia de tirar o fôlego (a gente só percebe que estava prendendo a respiração quando o capítulo acaba). Eu lembro quando estava ainda no começo do livro, numa inspeção das tropas russas em Braunau, quando eles têm de queimar uma ponte para conter os franceses, que estavam avançando, Nikolay Rostov tem seu batismo de fogo e tenta não se acovardar, já ali é nítida a diferença de como uma cena de batalha pode ser escrita e os desdobramentos dramáticos para os personagens envolvidos.
Um observação extra. Hoje, acabamos de sair, aqui no Brasil, de uma pandemia, que em termos históricos foi ontem, e de nos despedir de um governo autoritário e obscurantista, que também foi ontem. Hoje, nos noticiários, o que mais vemos são a confirmação de uma autocracia trumpista, a continuação de uma guerra na Europa, a perpetração de um genocídio e a eclosão de mais um grande conflito no Oriente Médio, isso sem contar com as nossas mazelas de violência estrutural. Muitas situações de exceção, ou "fatos históricos" como dizem os memes da internet. Isso tudo podendo ser visualizado em tempo real e em alta definição, podendo ser visto e revisto, com ou sem som. Estas situações de exceção estão disponíveis para consumo em plataformas audiovisuais, na palma da nossa mão. A minha geração teve seu primeiro conflito midiático com o Jornal Nacional retransmitindo as imagens da CNN da Guerra do Golfo, em 1991. "A guerra explode no Golfo Pérsico", dizia Sérgio Chapelin, seguido por imagens de mísseis lançados de porta-aviões na escuridão do mar noturno. Desde então, mais e mais imagens, cada vez mais definidas e em movimento, estão disponíveis para nós, a todo instante, para testemunhar nossas catástrofes. Mas por que digo isso tudo? Porque sempre fico intrigado com cenas de ação e cenas de "fatos históricos" narradas em épocas anteriores ao audiovisual, como o que Euclides da Cunha faz n'Os Sertões e como Alexandre Dumas faz n'Os Três Mosqueteiros com cenas de ação. No caso deste comentário, o que Tolstoy faz em Guerra e Paz. O poder da escrita de fazer algo visualmente atraente e, ao mesmo tempo, dramaticamente importante para os personagens, numa época onde a imaginação que era primordial. Como professor dos anos finais do ensino fundamental, eu vejo o quão adictos estão todos eles, meu quase quinhentos alunos, às imagens de tela e como eles já veem o mundo de um jeito próprio, um mundo através de pixels. Pois quando Tolstoy escreveu Guerra e Paz, ou quando Dickens escreveu Um conto de duas cidades, eles viviam num mundo no qual a arte de contar histórias dependia exclusivamente da palavra, seja escrita ou falada. Resumindo: era literatura num mundo onde ela cabia, onde a imaginação do leitor era um músculo poderoso, pois era um mundo concebido pelo que era contado. Hoje, um mundo concebido a partir de pixels.
Há muitas cenas famosas no livro, cenas com as quais nós já esbarramos por aí, noutras leituras ou vivências. Como a do urso, por exemplo, que acontece no início do livro (tudo que acontece nas primeiras trezentas páginas ainda é "início do livro") e que foi uma das primeiras que ouvi quando trabalhava naquele sebo da minha adolescência. A cena é muito importante para estabelecer a reputação de Pierre na sociedade tanto de Moscou quando de São Petersburgo. É, sim, uma parte muito divertida da história, que acontece no meio de uma sequência também muito boa, que é uma aposta etílica na qual Dolokhov toma parte, outra cena inflamável, com o perdão do trocadilho. Estas passagens eu li tendo meus gatos como testemunhas, no conforto do meu quarto, antes de dormir. Tal como uma bíblia, eu vivi com este livro debaixo do braço e por isso muitas cenas desta convivência foram marcadas pelo contexto ao redor. As manchas de chá no livro foram conquistadas neste horário, enquanto tentava ler e acariciar meus gatos com uma xícara nas mãos. Outra cena famosa é a caça aos lobos (Tolstoy era adepto à caça), na qual nós, os leitores, podemos experimentar a caça pelo ponto de vista dos cães. Eu tive de ler esta cena três vezes porque da primeira vez eu estava no intervalo do trabalho e um dos meus alunos passou pela janela gritando a plenos pulmões: "HELLO MY FRIEND MR RABBIT!", o que me roubou a concentração e deixou no lugar a vontade de aplicar cascudos.
Mais uma cena famosa, já mencionada, é a da tal "iluminação" do Príncipe Andrey. Toda esta sequência eu li num pub, o que contribuiu para a mancha de cerveja na capa. Minha esposa estava na cervejaria a trabalho, ela é cantora, e eu sempre a acompanho, só que desta vez carregando um Tolstoy. Eu lembro de passar por aquilo tudo, a tal "iluminação", mal conseguindo acreditar que "aquilo" estava acontecendo, sem spoilers. Quando o capítulo chegou ao fim, eu, chocado e arrebatado, não conseguia acreditar na experiência literária que acabara de ter. Eu me sentia só, muito só, dilacerado e encantado na mesma medida, enquanto as pessoas ao meu redor bebiam e dançavam "Bad Romance", da Lady Gaga. Quando eu leio durante as apresentações da minha esposa, sempre chega alguém para interromper a leitura, muitas vezes com a indiscrição de que ali não é lugar para ler, mas outras também impressionados com a capacidade de concentração. Naquela noite não foi diferente, mas o motivo era, é claro, o tamanho do livro na minha mão. "Você tá animado aí com esse livro, hein?", me disse um anônimo alcoolizado, mas simpático. Nós rimos, ele brindou comigo e sumiu na multidão. Eu não consegui mais ler naquela noite, me juntei aos dançantes.
Tolstoy tinha muitas manias em série, um maníaco serial. Já idoso, conseguiu a licença necessária para ter e andar de bicicleta; se tornou um entusiasta do ciclismo, seguindo seu hábito arraigado da prática de atividades físicas. Houve uma outra época em que desenvolveu uma apaixonite pela fabricação artesanal de sapatos. Ficava costurando sapatos de couro. Por uma outra vez, mais jovem, foi a vez da paixão pela apicultura. Como com todos estes exemplos, passou alguns anos monomaníaco pela criação de abelhas. Vem desta obsessão outra cena famosa de Guerra e Paz, que é a Moscou abandonada após a Batalha de Borodino. As descrições da cidade abandonada e destruída tal qual uma colmeia sem abelha-rainha são incríveis. A biógrafa Rosamund Bartlett diz inclusive que as traduções não chegam a fazer justiça, nesta passagem, à escolha de palavras que Tolstoy fez, porque usou termos técnicos russos da apicultura que costumam se perder quando traduzidos. Mesmo assim, é um capítulo inesquecível: a desordem da Moscou em chamas mimetiza a da colmeia não só pela falta de um poder central, a abelha-rainha, mas também pela desarmonia entre os indivíduos que, juntos, escrevem a História, cada um contribuindo de maneira igualitária para a vida da cidade (abelha-rainha, operárias e zangões, no caso da colmeia). Mais que isso eu não posso falar para não tirar o prazer da leitura.
Ainda de acordo com a biógrafa Rosamund Bartlett, Tolstoy nunca foi à praia. Nem, que eu lembre, Natasha Rostova, uma das protagonistas do livro. Acompanhamos a vida dela desde treze anos e ela tem um arco narrativo riquíssimo. Uma adolescente, cujo amadurecimento vem durante a guerra a base de escolhas muito equivocadas, típicas de adolescentes, influenciadas por pessoas que nem sempre são exatamente bondosas. Já perto do fim do livro, quando vemos uma Natasha bem diferente, madura e responsável, eu via esta Natasha em Porto de Galinhas, para onde ela e os demais personagens haviam viajado comigo e com a minha esposa. "Livro na praia, é?! Cada um na sua, né não?", disse um bem-humorado vendedor de pipas que passou por nós, enquanto eu tentava ler e comer camarão ao mesmo tempo. Foi assim que o livro ganhou algumas manchas de gordura e grãos de areia.
É muito difícil falar deste livro sem dar spoilers. Também é muito difícil falar o necessário sem tirar o prazer da leitura. Mas eu fiz o que pude. Este é só um comentário, uma recomendação. Obrigado por ter lido. Caso você comece a ler Guerra e Paz a partir desta recomendação, aí é você quem vai me agradecer.
Ciao. :)
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