17 de dezembro de 2025

nota_227: Domínio da escória

Estou relendo Doutor Fausto. Um trecho do romance que me faz pensar no conflito, que há aqui no Brasil desde sempre e que se fortaleceu nos anos da presidência de extrema-direita, entre o mundo dos privilegiados e o campo progressista: 

Verdade é que certas camadas da democracia burguesa pareciam e parecem também hoje merecer o que acabo de chamar de domínio da escória, dispostas como estão a pactuar com ele, a fim de conservarem por mais tempo seus privilégios. Porém, para exercerem esse domínio, surgiram líderes que, assim como também eu, rebento da mentalidade humana, consideravam-no o supra-sumo da desgraça que se pudesse e devesse impor à Humanidade. Levaram, portanto, seu mundo a lutar até à morte contra ele. Nunca seremos capazes de expressar toda a nossa gratidão a esses homens, e sua ação demonstra que a democracia dos países ocidentais, não obstante toda a obstinação com que suas ideias de liberdade se opõem às necessárias inovações, trilha, por essência, o caminho do progresso humano, da boa vontade de aperfeiçoar a sociedade, e tem, segundo sua natureza, a força indispensável para renovar, corrigir, rejuvenescer e finalmente instaurar condições de vida mais equitativas... 

Doutor Fausto, Thomas Mann, 1947 (tradução de Herbert Caro; Nova Fronteira, 3ª edição, 14ª impressão).

PS: Neste trecho, Serenus Zeitblom, o narrador, está elogiando os Aliados por estarem impondo uma derrota (mais uma) aos alemães ao momento em que ele escreve a biografia do seu amigo, Adrian Leverkühn. Na cronologia do romance, Zeitblom está em 1944. 


26 de novembro de 2025

Reunião de pais

Publiquei primeiro no Substack

Como professor, eu tenho uma preguiça enorme em ouvir opiniões sobre educação. Principalmente depois de uma reunião de pais. Se você não é docente, evite falar de educação, é melhor. 

Ser professor envolve estar sempre aprendendo, buscando, cultivando saberes, e ouvir as pessoas é parte deste processo ininterrupto de crescimento pessoal e profissional, mas é justamente aí que bate o cansaço. Há um consenso, mesmo que rarefeito, de que a educação é a coisa mais importante na construção de uma sociedade melhor e de seres humanos mais humanos, mas, ao mesmo tempo, há uma constante depreciação dos professores como profissionais. Esta dicotomia gera o fenômeno de que todos sabem, meio que naturalmente, a importância da docência, e, por isso, se sentem confortáveis para pitaquiar à vontade sobre o assunto. Até aí tudo bem, o problema é que o outro componente deste fenômeno é o descrédito aos próprios professores, que tem se intensificado com a toxicidade das redes sociais e a propaganda anti-humanista das extremas-direitas. Diante disto tudo, não bastassem os incêndios diários com quais temos de lidar no dia a dia escolar, depois de conversar com os pais dos alunos, uma das últimas coisas que um professor vai querer é que alguém mencione “educação” perto dele.

Uma vez por bimestre, há a reunião de pais e professores na escola onde trabalho. É quando entregamos os boletins aos pais. Um grande evento. Não é a única ocasião em que encontramos os pais dos alunos. Alguns costumam frequentar a escola porque o nosso dia a dia é feito de um ininterrupto entra e sai de alunos, pais e polícia. Embora haja mais de uma chance de encontrar os responsáveis, é na reunião de pais que ou lavamos a roupa ou entregamos os louros, porque é quando podemos conversar sobre o crescimento do estudante, a missão primordial da docência. É nesta ocasião que temos a oportunidade de estender aos responsáveis tanto as broncas quanto os elogios e também a de exercer outras duas das muitas facetas da nossa profissão, a de terapeutas e a de sacos de pancadas. Durante a reunião de pais, há um desfile de alguns Brasis bem à nossa frente e nós interagimos com cada um deles. Neste evento, explicamos como tentamos educar os filhos e o porquê de eles terem ou não ido bem na nossa disciplina. Durante esta interação, tentamos educar os próprios pais dos estudantes, para que os filhos ou melhorem ou continuem o bom trabalho, enquanto somos alvejados ou por confissões ou por críticas, umas e outras nem sempre fáceis de ouvir, mas que acabam ajudando a enxergar melhor os contextos familiares dos alunos.

Antes, um pouco de contexto. Sou professor da rede pública no Distrito Federal, uma unidade da federação que não é exatamente famosa por tratar bem os professores. O Distrito Federal é composto por 35 regiões administrativas, que é como são chamadas o que fora do DF ainda são conhecidas como "cidades-satélites". As regiões administrativas são como bairros ou distritos. Não têm vereadores nem prefeitos eleitos, mas administradores indicados pelo governador. Há regiões que precisam mais, outras que precisam menos da capital, Brasília. Muitas regiões são como cidades-dormitório: são mais habitadas enquanto os moradores dormem nelas, pois passam o dia trabalhando e/ou estudando na cidade-núcleo. Dentre estas 35 regiões, há uma chamada São Sebastião, que é onde trabalho.

São Sebastião já foi uma cidade urbanisticamente mais hostil, feita de muito concreto e de um poeirão vermelho que nunca acabava, mas hoje, mesmo com concreto e poeira, tem mais verde e alguma estrutura. Uma feira popular incrível, onde dá pra comprar só o natural e saudável, pois a região tem área rural circundante com agricultores que cultivam de um tudo. (Alguns alunos meus da área rural já mataram aula para ficar se exibindo na frente da escola, a cavalo.) Um centro olímpico e paralímpico, com programas para todas as idades e onde treinam atletas paralímpicos profissionais (a mãe de um ex-aluno era atleta de badminton). Corpo de bombeiros, que tem uma escola própria. Um restaurante comunitário, presente em quase todas as regiões administrativas do DF e onde as refeições custam R$ 1,00. Não tem hospital local, mas duas unidades básicas de saúde. Enfim, uma cidade, bairro, distrito, região administrativa com aproximadamente 120 mil habitantes, onde as 27 escolas da região ainda não dão conta da quantidade de alunos, nem da qualidade de alunos (mais sobre isso adiante). Há ainda, na cidade, pelas estimativas apuradas do meu olhômetro, uma relação quase que de dois para um entre “distribuidoras de bebida” e igrejas evangélicas. As distribuidoras estão ganhando e eu não sei se isso é bom ou menos ruim.

Outro dado sobre a cidade é que ela fica perto do Complexo Penitenciário da Papuda, a famosa Papuda. Aprendi há pouco, aliás, de onde vem o nome “Papuda” com uma colega professora de geografia: a fazenda desapropriada onde hoje fica o complexo pertencia a uma família e nesta família havia um senhora com bócio, que, como ditava o bullying raiz, era conhecida como “papuda"; daí que a fazenda da família, por sinédoque, era a “fazenda da papuda".

A Papuda fica a vinte minutos de corrida da minha casa. A primeira parada de ônibus disponível para quem sai da penitenciária fica exatamente em frente ao meu condomínio. É frequente eu chegar ou sair de casa e ver os reeducandos na parada de ônibus. Havaianas, bermuda e camiseta brancas e cabeça raspada. Eu sempre fico curioso para saber se um deles seria o pai de algum aluno meu, porque é um fenômeno frequente famílias se mudarem para São Sebastião para ficarem mais próximas ao parentes encarcerados. “Meu pai vai sair amanhã, professor", já ouvi isso mais de uma vez, com variações, de alunos felizes por poderem encontrar os parentes. Também já vi os mesmos alunos tristes, seja porque os parentes que cumpriram o “saidão” tiveram que voltar para a confinamento, seja porque os parentes descumpriram a saída temporária e se tornaram foragidos, o que é uma falta grave e leva à regressão ao regime fechado. Ah, sim, a saída temporária é benefício de quem está no regime semiaberto e já cumpriu uma fração da pena. Para os alunos cujos parentes estão em regime fechado, a alegria está em visitá-los. Coisa que também me falam com alegria: “Vou ver meus irmãos, professor!”

Eu não tenho alunos cujos parentes foram presos por crimes como fraudes financeiras, lavagem de dinheiro, corrupção ou sonegação de impostos. Alunos que chegariam à escola de motorista, primorosamente tutelados para não verem os pais algemados na TV, quando isso acontece. Os crimes presentes na vida dos meus alunos são furto, roubo, tráfico, homicídio, latrocínio, feminicídio, estupro e estupro de vulnerável (esta listinha é baseada no que já soube por meio dos pais e responsáveis e dos próprios alunos). Alguns destes crimes só foram crimes porque a pele das pessoas envolvidas passava pelas variações de parda a preta. Fossem pessoas brancas, um furto seria um “mal-entendido”, o traficante seria um “jovem", você sabe. Além deste universo particular relacionado à Papuda, há o universo menos particular do crime em comunidades. Embora a região administrativa onde eu trabalhe não seja a mais violenta do Distrito Federal, ainda é um lugar perigoso. Eu diria moderadamente perigoso, com o perdão do oxímoro. Na porta da escola, sempre tem algum aluno sendo assaltado. Dentro e fora da escola, sempre tem aluno brigando. Toda a trama complexa que engendra a prática da violência em comunidades pobres também desfila na minha frente não só na reunião de pais, mas no dia a dia da sala de aula. Desigualdade socioeconômica, racismo estrutural, desemprego e subempregos, falta de acesso a serviços básicos, inclusive educação, tudo isso compõe um tecido radioativo com o qual as pessoas com quem eu passo o dia interagindo são obrigadas a se vestir.

Muito da radioatividade deste tecido tem a contribuição do discurso evangélico, segundo o qual a escola nem sempre é um bom lugar. Justo a escola, o único lugar plural que poderia salvar (sim, salvar) todo futuro cidadão.

Ainda no tópico contexto, mas de forma mais ampla, estamos em 2025, ainda. Uma era recém-pandêmica e hiperconectada. É possível sentir o estrago que a pandemia causou e o dano que as redes têm causado à cabecinha dos meus alunos. Quanto à pandemia, há os lutos e o isolamento (este, necessário); quanto às redes, há o declínio da concentração e o aumento do “umbiguismo". Tanto a falta de concentração quanto o ensimesmamento são problemas que os professores da velha guarda também relatam, são coisas meio que inerentes aos adolescentes, eu lembro como era com a gente na adolescência. Mas é que agora é diferente, mesmo, e eu não precisaria colocar aqui o prejuízo à musculatura cerebral que é uma pessoa de doze, treze anos (ou de qualquer idade) ter um smartphone não supervisionado à mão. Se é difícil para nós termos um controle relativo sobre nossa servidão digital, imagine para eles. Agora some o ópio das telas àquele contexto regional que descrevi antes.

Outra coisa ainda mais específica seriam os próprios casos dos alunos. As dinâmicas familiares de cada um somadas àqueles dois outros contextos do parágrafo anterior. O problema é que aí eu não terminaria de escrever este post nunca, nunquinha. Mas eu vou deixar aqui algumas sinopses dos enredos que nós acompanhamos durante o ano letivo e que pipocam à nossa frente durante a reunião de pais. Aqui vão alguns exemplos do que atendemos.

Por exemplo, o caso do menino que repetiu três vezes o mesmo ano porque a mãe prefere que ele fique em casa, no celular, assim ele não dá trabalho a ela, já que ele, na escola, além de não fazer nada, só arruma briga com alunos e professores; daí que, durante a semana, ele fica em casa, quieto, no celular, e no fim de semana vai à igreja com ela.

Por exemplo, o caso das irmãs, repetentes, que brigam toda a semana, e apanham, porque confiam que os pais “vão resolver”, como já "resolveram” uma vez: a mãe foi à escola bater na outra adolescente que havia agredido a filha delas, e bateu; daí que a polícia, que sempre aparece por lá, levou todo mundo para a delegacia.

Por exemplo, o caso da mãe, analfabeta, que precisa do filho, um menino do sexto ano, para fazer as coisas básicas do dia a dia, já que ela não sabe nem ler nem mexer no celular, e calhou do menino, por motivos evidentes, ser um aluno com baixo rendimento; daí que a mãe só apareceu à nossa mesa, na reunião de pais, porque a vizinha, mãe de outro estudante da mesma escola, disse a ela da reunião, já que o próprio filho, com a mochila abarrotada de advertências e comunicados por escrito, jamais disse a ela coisa alguma.

Por exemplo, o caso do menino “desafiador” que ninguém consegue controlar nem receber respeito porque, afinal de contas, foi rejeitado pela mãe, que o pariu aos treze anos de idade, não tem pai, que "abandonou" a menor que ele mesmo havia violado, e é criado por uma avó semialfabetizada que é dona de um “bar” (um barraco de zinco que vende cachaça) onde o menino, quando não está na escola, fica "trabalhando” e ouvindo impropérios da própria avó, como os que ouvimos dela para ele na nossa própria frente, já que ele é um estorvo para ela; daí que, embora eles não saibam, o melhor lugar para este menino é, sim, a escola (para este e para todos).

Por exemplo, o caso da menina do sétimo ano que recebia a cada quinzena as atividades dos professores, para fazer em casa, porque estava com vergonha de ir para a escola já que estava grávida; foi engravidada pelo irmão, que sumiu depois do estupro; daí que a tia ia buscar as atividades para ela na escola, atividades que a menina, é claro, não tinha condições desempenhar por completo, mesmo que tenham sido atividades adaptadas ao que, supúnhamos, ela poderia realizar.

Por exemplo…

Eu poderia continuar, mas já deu pra ter uma ideia. Estes são exemplos apenas dos casos em que os responsáveis, de alguma maneira e seja com que objetivo for, pisaram na escola e conversaram conosco. Há casos muito mais problemáticos do que estes que citei, mas nestes outros não há responsáveis minimamente responsáveis. Seria assunto para outro post, se eu tivesse coragem para isso. Mas esses snippets de enredos servem para ilustrar que nosso trabalho também é o de educar os pais.

Por outro lado, eu seria leviano se não dissesse que há os bons enredos. Há um punhado deles por turma, mas não chegam à maioria. Os melhores alunos nunca são a maioria, seja qual for o contexto, basta observar seu próprio histórico escolar, do primeiro ano ao ensino superior, se for o caso. Mas é importante deixar isso aqui registrado pelo seguinte motivo: os melhores alunos, que são minoria, têm os pais mais presentes, o que também explica por que são os melhores. No contexto da reunião de pais sobre o que estamos falando aqui, num chutômetro baseado em amostras empíricas minhas e dos demais professores, os pais da minoria boa perfazem quase a metade dos pais presentes à reunião. Sobre estes pais, muitos têm narrativas de vida bem difíceis, como é de se esperar por todos os contextos que já expus. Narrativas difíceis a ponto de, por exemplo, um pai se orgulhar de o filho caçula (de não lembro quantos, alguns já mortos) ter conseguido “se formar”, ou seja, concluir o nono ano e se formar no ensino fundamental. O que é, sim, um exemplo inquestionavelmente vencedor. Esta outra amostragem, a de bons alunos de pais presentes, ajuda a manter a chama da docência acesa, mesmo que todo professor, quase ou todo dia, pense se não valeria mais a pena trocar a chama da docência pelo calor de qualquer outra área profissional.

Há um dilema peculiar aqui: os alunos desafiadores (não os de baixo rendimento, os “maus alunos" mesmo, sem eufemismo) são os que mais precisam da escola, são os que mais precisam de nós, professores; por outro lado, são os que mais nos exaurem, como se a docência já não fosse exaustiva o suficiente, porque com eles nós acabamos atuando como pais postiços, familiares vicários, terapeutas semiqualificados, pseudoguias espirituais e, quando dá, professores. Já os alunos com quem nos sentimos realizados, os alunos para quem nossas atribuições se afunilam no que seria, em teoria, nossa única função, a de educar mediante o conhecimento que estudamos e que é culturalmente relevante das nossas disciplinas, já estes alunos não precisam tanto assim de nós. E isso é bom, porque há uma família por trás deles cumprindo o próprio papel da família. Quando os pais presentes dos bons estudantes sentam à nossa frente na reunião, já chegam com uma pose que me deixa encantado: a pose de que são eles, os pais, que irão receber os elogios. O que é verdade, mesmo quando só nos referimos aos estudantes.

Ninguém cumpre tão bem o papel de família quanto os familiares de alunos inclusivos e nós temos muitos alunos assim. As salas inclusivas e de inclusão reversa têm mais vantagens do que desvantagens. É bonito ver a mágica da interação social e do aprendizado mútuo acontecendo. Há assédio e bullying, sim, mas estamos aqui para isso e as coisas fluem daquele jeito acidentado, como uma tromba d’água. Mas nada disso é fácil (nada em profissão alguma é fácil, principalmente da vida dos professores) nem merece ser glamourizado. Quando eu interajo com os pais alunos inclusivos, eu sempre vejo aquela imagem descrita no romance O filho eterno, do Cristovão Tezza, a imagem dos pais sempre de cenho franzido e expectativa controlada, tentando controlar a ânsia de ver o filho conseguindo realizar alguma atividade básica. É invariavelmente este o filme projetado à minha frente quando estes pais vêm conversar sobre os filhos.

Agora, um exercício. Imagine que você esteja numa sala de sétimo ano com aproximadamente trinta e cinco alunos. Se é sétimo ano, eles têm de doze a treze anos. Destes, dois não sabem nem ler nem escrever, chegaram até aqui por mágicas burocráticas que demoraria a explicar e eu mesmo não saberia dizer direito. Uns três estão no espectro, em graus variados, cada um com seus acentuados universo particular e tipo de interação. Quase metade é naturalmente indisciplinada, variando da indisciplina do tipo conversar durante a aula até brigar com faca em sala (eu mesmo já separei várias brigas, com e sem faca). Além desta, você tem mais catorze turmas (meu caso), todas com configurações bem semelhantes. Você iniciou o ano com um conteúdo programático bem bonito e todo em consonância com a Base Nacional Curricular Comum. Você se tornou um professor porque você quer compartilhar aquele assunto de que você, que você estudou por anos. Se você é um professor de ciências, quer falar do espectro eletromagnético e por que o céu é azul, e muito mais. Se você é professor de português, quer usar as músicas do Caetano Veloso para falar de figuras de linguagem, e muito mais. Se você é professor de história, quer falar de Zumbi e por que ele é importante na história do nosso país racista (sobretudo porque a maioria dos seus alunos é negra), e muito mais. Não importa, se você é professor, você quer — que loucura! — educar. Você quer aprender e compartilhar conhecimento com todos seus estudantes. Você elabora seus planos de aula, as adaptações dos planos de aulas para cada turma, as adaptações para cada estudante dentro de cada turma. Você quer muita coisa para suas centenas de alunos, enquanto desenvolve um relacionamento com eles, porque nunca é "vocês aí" e "eu aqui”. É mais para “nós onde der pra ser”. Mas, ao final do ano, tudo que você quer é férias. Se alguém destes quinhentos alunos aprendeu a lavar a mão antes e depois de comer, já é lucro. Começará tudo de novo no ano seguinte.

A vida docente, neste contexto que do qual tentei mostrar uma parte aqui, me lembra uma frase do Doutor Fausto, de Thomas Mann (com a tradução de Herbert Caro): “O que tento expressar é uma mescla de sentimentos singularmente dolorosa: a mescla de urgência e inutilidade.”

É só não falar de educação perto de um professor. 

22 de junho de 2025

nota_225: Natasha Rostova em Porto de Galinhas

Publiquei primeiro no Substack.

Por alguns meses, eu convivi com centenas de russos e alguns franceses, que me acompanharam a todo lugar. Gostaria que você também tivesse as mesmas companhias.

"O que é isso? É a Bíblia?" foi uma das perguntas que ouvi enquanto lia Guerra e Paz. É impossível não ser interrompido quando você lê em público um livro desse tamanho. A curiosidade alheia é inevitável e isto precisa ser aceito como parte da experiência de leitura. "Que bíblia é essa?", outra variação, a mais frequente, vinda de todos os tipos de perguntadores. Ler em público não é um fetiche consciente meu, mas eu sempre carrego comigo, e aposto que você também, qualquer coisa que esteja lendo no momento e este livro, em particular, é um trambolho que precisa viver com você todos os momentos do dia para a leitura ser concluída. Claro, não é só pela extensão da leitura que você precisaria estar com ele o tempo todo, mas também porque o livro é maravilhoso, não tem como deixá-lo de lado. A tal ponto que eu o li em cenários bem distintos -- e isso atraiu todo tipo de intromissões. Mas eu aposto que todos os que me interromperam usando a Bíblia como referência tinham certeza de que não era a Bíblia que eu lia. Ou porque me conheciam pelo menos um pouquinho, ou porque o próprio livro não tinha o jeitão de bíblia, a não ser pelo tamanho. Quando uma pessoa está lendo a própria Bíblia cristã em público (tradicionalmente com B maiúsculo), esta pessoa é evitada, seja por respeito, seja por melindre, ou os dois. O que não acontece quando a pessoa está lendo uma outra "bíblia". 

"Pra que isso tudo, professor?", alguns alunos se espantavam quando viam o leviatã no meu braço ou sobre minha mesa, e eu nem precisava estar lendo para eles darem voz ao assombro. Não que eu goste de ser interrompido enquanto leio, não mesmo. Mas isso vai acontecer, infelizmente, num caso de um livro como este. Uma das interrupções de que menos desgostei foi a de um colega professor: "Um livro desse tamanho... é alguma promessa que você está pagando?". Eu ri. Todos rimos, na sala de professores. Só que a pergunta me tocou, porque, sim, era uma promessa. 

Longe do sentido de penitência implícito na pergunta do colega, esta leitura era uma promessa que eu pagava, já tarde, por um punhado de motivos. Um, Liev Tolstoy é o russo que mais li. Dois, também é um dos quais mais gosto. Três, como literatura é algo próximo de uma religião pessoal na minha vida (duas das minhas tatuagens são homenagens a Moby Dick e Riobaldo), esta bíblia era ainda uma leitura necessária. Quatro, os clássicos precisam ser lidos e relidos. Ponto. Reler quando adulto os clássicos que li na adolescência (Anna Karenina, Madame Bovary, Grande Sertão: Veredas etc) foi como recriar todo meu mundo interior. Perdão pela hipérbole, mas imagino que você também seja assim com os livros de que gosta. Há releituras na minha lista de dívidas (Ulysses, O Homem Sem Qualidades, Paradise Lost etc) e já antevejo com simpatia a sensação de "reembaralhamento do eu" (expressão do Heinz Kohut que eu vou usar despudoradamente fora do contexto e do sentido originais). 

Agora, voltando às dívidas e promessas de leitura, Guerra e Paz era uma leitura inédita. Era uma dívida mesmo. Em nenhum momento da minha adolescência eu tive vontade ou coragem de encarar este Tolstoy -- e olha que eu tive uma adolescência bem comprometida com a leitura. A tal ponto que meu primeiro emprego, aos quinze anos, foi num sebo: frequentava tanto o lugar que acabei sendo contratado. Neste sebo, que existe até hoje em Brasília, jovens bibliófilos, e por jovens bibliófilos eu quero dizer septuagenários em diante, costumavam ser enfáticos sobre a importância de ler os clássicos, alguns deles radicais ao dizer que só os clássicos mereciam ser lidos. Todo sábado pela manhã uma gangue de velhinhos se reunia para lamentar o fim do romance e elogiar os imortais da literatura, imortais que eu anotava num caderninho e de quem saía à caça pelas estantes quando não havia clientes. Não concordava com os radicalismos de que "o romance morreu" e "só os clássicos é que prestam", mas a noção de que ler os clássicos -- o que nos acostumamos a chamar de cânone -- é fundamental ficou comigo desde então. Hoje, a literatura que mais leio é a brasileira contemporânea, mas aqui e ali releio ou leio o que tradicionalmente é tido por "clássico". Eu não consigo emendar mais de dois livros contemporâneos sem que um clássico esteja por perto na fila de leitura. O mais recente foi Guerra e Paz. É sobre ele este comentário que você está lendo, que também é uma declaração de... Bem, é sobre uma experiência de leitura que eu tive, e que, espero, desperte em você o interesse em ler as vidas de Pierre, Natasha, Andrey, Nikolay, Sonia, Maria, Denisov...

Como ficou explícito nos primeiros parágrafos, parte desta experiência de leitura envolve não ser discreto. É impossível, as pessoas vão comentar aquele calhamaço com você. Então, comecemos por este ponto, o objeto livro, o chamariz. 

A edição que eu li foi a da Penguin Classics, num único volume, com tradução de Anthony Briggs. War and Peace. Não existe em português brasileiro uma edição de Guerra e Paz em volume único. As edições que valem a pena estão divididas em dois volumes, e elas valem muito a pena. Uma é a da extinta Cosac Naify, dois tijolinhos primorosos que podem chegar a valores pornográficos nos marketplaces. Claro, papel bíblia e capas de couro. Sem dúvida eu preferiria ler a bíblia do Tolstoy em papel bíblia, mas eu sou professor e eu consumiria um salário inteiro na aquisição destes volumes. A outra edição, também em dois volumes, é da Companhia das Letras, não tão luxuosa mas exemplar. É capa dura e maior em tamanho que a da Cosac. Maior em tamanho, mais pesada também, mas não custa um rim, é acessível. Ambas edições são com a elogiada tradução de Rubens Figueiredo, diretamente do russo. Há outra edição acessível no Brasil: a de bolso em quatro volumes da L&PM, com tradução também direta do russo por João Gaspar Simões, mas esta tradução é em português europeu. Não li nenhuma dessas edições, mas indicaria as que têm a tradução de Rubens Figueiredo, cujo trabalho já conheço pela tradução primorosa que fez de Anna Kariênina e que trilhou o mesmo caminho da de Guerra e Paz: foi publicada pela Cosac Naify, republicada pela Companhia das Letras. 


Eu tenho dois, talvez três argumentos para ter escolhido a edição britânica e para poder recomendá-la, caso você leia em inglês. (Eu sou professor de inglês.) O primeiro é o de que qualquer boa tradução serve se você não vai ler o original. Há por aqui a do Rubens Figueiredo. Há, pelo mundo anglófono, a já mencionada do Anthony Briggs, que eu adorei, e a do casal de tradutores Richard Pevear & Larissa Volokhonsky, também super elogiada, publicada pela Vintage, se não me engano. Para ver uma comparação direta das traduções de Briggs e Pevear & Volokhonsky, este link aqui pode ser útil. A tradução do Briggs, na verdade, não foi minha primeira opção. Quando decidi ler Guerra e Paz, estava determinado a comprar uma edição que fosse em volume único e a primeira que me apareceu, na extinta Livraria Cultura, foi a da Dover, com tradução de Constance Garnett. Só depois que cheguei em casa com o livro é que pesquisei sobre Garnett e cheguei ao artigo de David Remnick, na New Yorker, sobre as arengas entre os tradutores contemporâneos dos russos clássicos. No artigo, o trabalho de Garnett é criticado por falta de comprometimento: trechos inteiros das obras originais eram subtraídos na tradução e os autores ficavam parecidos demais. Tolstoy e Dostoievsky soavam iguais, algo impensável. O artigo é de 2005, por volta de quando eu comprei a tradução de Garnett, e a tradução de Briggs foi publicada naquele mesmo ano. O que me levou a ter, ao mesmo tempo, duas traduções em inglês encalhadas em casa, uma esperando ser doada, a de Garnett, outra esperando ser lida, a de Briggs. Que é uma das que eu recomendo, caso não leia russo.  

O segundo argumento para ter escolhido esta edição da Penguin Classics é que ela é volume único. Esta edição tem os dados necessários para este tipo de livro: mapas das campanhas de guerra e das batalhas; árvores genealógicas e lista de personagens, muito útil quando temos mais de quinhentos personagens com nomes russos; notas explicativas, com todas as referências a personagens reais, tradições locais e outras obras mencionadas pelo narrador. Tudo isto é necessário, sim, mas ser um só volume foi o que mais contou pra mim. Todo aquele universo estaria inteirinho na minha mão, do início ao fim, andando comigo. Carregar consigo um universo inteiro acentua a conotação de "bíblia" que este livro tem. Num só corpo impresso, eu tenho as vidas de Pierre, Andrey e Natasha. Eu sentiria como se os tivesse despedaçado caso a edição fosse em mais de um volume, como me senti lendo Os Miseráveis em dois. Eu pude ir e voltar ao longo de todos os arcos narrativos, tanto com as notas do tradutor como com as minhas. Eu pude fazer anotações a lápis para refazer a trilha de certos eventos ou delinear o caminho pelo qual passou a transformação de certos personagens. Por exemplo, e sem spoilers, a iluminação de Andrey Bolkonsky, uma das passagens mais incríveis da literatura, acontece da página 1090 à 1095, mas é na página 27 que ele, conversando com Pierre Bezukhov, diz uma das frase mais famosas do livro e na qual todos nós já esbarramos noutras leituras: "Se todos lutassem apenas por suas convicções e nada mais, não existiriam guerras". Depois de me recuperar do que acontece a partir da página 1090, eu pude ver as minhas anotações sobre a evolução no arco do Príncipe Andrey de forma retroativa, até chegar àquela soirée, no início do livro, onde ele conversa com Pierre, e pude reviver a mudança dele de forma, digamos, imediata. Outros exemplos seriam a relação entre Pierre e Dolokhov (mas não vou falar sobre isso), ou a carta que Sonya envia para Nikolay, na página 1064, que é a culminância do que começou mais ou menos na página 578 (este, um desenlace de fazer chorar).  Com o livro em volume único, é possível fazer a trilha da leitura com as suas próprias anotações. Aí está meu segundo argumento para indicar esta edição. 

O possível terceiro argumento para indicar a edição da Penguin Classics é que eu gosto de ver os livros organizadinhos na estante, a capa preta e a cinta branca, com o nomes dos autores em vermelho. (Eu tenho ascendente em Virgem.) Mas, motivos estéticos de lado, há a questão do peso: os livros da Penguin Classics são muito leves, mesmo este com quase 1400 páginas. São ideais para portabilidade. A qualidade da encadernação é outro ponto crucial, pois nunca vi um livro Penguin se fragmentar. Quando eu estava relendo Moby Dick na edição maravilhosa da Cosac Naify (tradução de Irene Hirsch), a capa dura e o peso, e o tamanho, atrapalhavam um pouco a leitura no ônibus. Nunca tive esse problema com os livros da Penguin.

Eis os meus motivos para ter escolhido esta edição e para lhe fazer esta indicação. Se peso não for um problema para você, a edição da Companhia das Letras, com a tradução do Figueiredo, é perfeita. Esta edição, inclusive, vem com um posfácio de Isaiah Berlin sobre Tolstoy. 

Agora, que livro é Guerra e Paz? Para encurtar a conversa, é um romance. É a resposta mais prática e não de todo equivocada. É um romance como outros lançados por volta da mesma época? Não, não é. Tampouco é um romance que se pode usar como exemplo deste formato. Tolstoy começou a publicar a narrativa em partes, na revista O Mensageiro Russo, entre 1865 e 1867, e a publicou como livro em 1869. Contemporâneos ao livro de Tolstoy estão Crime e Castigo, de Dostoievsky, também publicado em partes na mesma revista e um grande exemplo do formato romance, e Uma Educação Sentimental, de Gustav Flaubert. O mesmo Flaubert, dez anos antes, havia publicado um clássico da arte do romance, Madame Bovary, e um ano depois de Tolstoy publicar Guerra e Paz em livro apareceu mais um exemplar do mesmo formato narrativo: Middlemarch, de George Elliot. Que para muitos é o exemplo lapidar do romance. Ou seja, um pouco antes, à mesma época e um pouco depois, há exemplos padrão da narrativa longa, todos canônicos, mas Guerra e Paz difere de todos eles. Mesmo assim, eu vou com a maioria e digo que Guerra e Paz é um romance, porque é o único termo possível. 

O próprio Tolstoy, aliás, não considerava o livro dele um romance. Como está na biografia de Tolstoy por Rosamund Bartlett: 

"[Tolstoy] enfrentou a traiçoeira pergunta acerca do gênero do seu livro, oferecendo uma definição que ficou famosa e que apesar de ser citada à exaustão não é necessariamente útil: 'Que vem a ser Guerra e Paz? Não é um romance, muito menos um poema [narrativo], e não é sequer uma crônica histórica. Guerra e Paz é o que o autor quis e pôde exprimir pela forma como o exprimiu'. Justificando sua aparente falta de respeito pelas formas literárias europeias convencionais, [Tolstoy] acertadamente argumenta que 'A principiar por Almas mortas, de Gógol, e a acabar com Recordação da casa dos mortos, de Dostoievsky, não existe no período moderno da literatura russa qualquer obra artística em prosa que se eleve um pouco acima da média que se haja submetido à forma do romance, do poema [narrativo] ou da novela.' [Tolstoy] também aborda outros pontos de controvérsia, explicando por que em seu livro tanto os personagens russos como os franceses falam ora russo, ora francês, e empreende uma robusta defesa do direito do artista de divergir dos relatos históricos ao evocar eventos passados." (Tolstói, a biografia. Rosamund Bartlett, tradução de Renato Marques. São Paulo: Globo, 2013.) 

Se Tolstoy não considerava o livro dele um romance, bem, isso é com ele. Mas é um livro que tem muitas peculiaridades quanto à forma, sim. Não está de acordo com as "formas literárias europeias convencionais". Por exemplo, tudo o que é literatura no livro é narrado em terceira pessoa onisciente, técnica na qual Tolstoy é mestre, e, enquanto literatura, o livro é tudo o que se espera de um clássico. Porém, já próximo ao final da narrativa (página 1261), enquanto são feitas considerações sobre a maneira como Napoleão e Alexandre I agiram sobre e durante os eventos descritos no livro, este narrador onisciente dá voz ao próprio Tolstoy, em primeira pessoa, que diz: 

"Mesmo que eu veja de forma positiva a sobrevivência da casa do meu pai na Moscou de 1812, ou a glória do exército russo, ou o sucesso da universidade de Petersburgo e de outras universidades, ou a independência da Polônia, ou a supremacia da Rússia, ou o equilíbrio de poder na Europa, ou um tipo peculiar de avanço no Iluminismo europeu que atende pelo nome de progresso, eu estou propenso a acreditar que a atuação de qualquer figura histórica estava destinada a algo além destas coisas, a objetivos mais amplos, além da minha compreensão." 

Quando eu li o trecho acima, não me pareceu uma simples quebra de quarta parede. Ele quebrou a quarta parede, acendeu as luzes do teatro e fez os atores trocarem de figurino -- tirando os uniformes militares da Batalha de Borodino e vestindo as roupas de gala do casamento de Pierre Bezukhov -- na frente da plateia, o leitor, que ouve o elenco conversando sobre como ganhar milhas no cartão de crédito. Daí "ele", o narrador ou Tolstoy -- tanto faz --, apaga os luzes e o leitor volta à encenação com as bodas de Pierre. Outro exemplo, talvez menor mas não menos peculiar, do formato próprio do livro é que mesmo o narrador onisciente tem um lado claro na narrativa, pois se refere ao exército russo sempre por "nosso exército". 

O trecho que transcrevi acima (traduzi do inglês, perdão caso haja alguma perda de sentido) trata de História. Durante todo o livro, ficou evidente para mim que a leitura mudava muito de sabor quando era literatura e quando era historiografia. Não só Guerra e Paz é um romance histórico, com personagens e eventos reais, como é um romance que pensa sobre como escrever a História, o aspecto historiográfico do livro. A "filosofia da História de Tolstoy" é um aspecto importante do livro, sobre o qual Isaiah Berlin escreveu no ensaio O porco-espinho e a raposa (ensaio este que não foi escrito para ser levado tão a sério, mas como um exercício intelectual). Não é algo que eu pretenda comentar aqui, mas seria injusto não falar absolutamente nada sobre isso. Então, antes que eu volte a falar apenas de literatura, vou falar um pouco sobre essa "filosofia da História de Tolstoy", mas somente o necessário para não afugentar ninguém do interesse em ler Guerra e Paz. 

Tolstoy é muito repetitivo com as passagens historiográficas do livro. As mesmas ideias são mencionadas ciclicamente, sendo a última rodada o epílogo do livro, que é historiografia pura. A narrativa literária termina um capítulo antes, com uma imagem lindíssima do Nikolay (não é spoiler, você não sabe a qual Nikolay eu me refiro). Nesse epílogo, que a gente lê no embalo, nada de novo é acrescentado, mas expandido e repetido. Disso tudo que é repetido, é possível pinçar duas ideias interligadas: uma, a de que a História é escrita por todos, as atitudes de todos, do mujique ao tsar, contam o mesmo para o fluxo do rio da História; a outra, de que neste mesmo rio da História as pessoas que mais concentram poder são, na verdade, as menos livres. Ambas as ideias estão exemplificadas na própria narrativa de Guerra e Paz: servos fieis e imperadores contribuem para o avanço da história, mas só aqueles é que têm uma relativa agência sobre si, enquanto estes, os poderosos, é que são guiados pelo momento histórico. Noutro canal, noutro momento e noutra linguagem, eu poderia falar mais sobre estes dois pontos, mas para fechar este parágrafo ilustrando estas ideias que eu pincei, uma imagem: se estivéssemos todos na praia, a história da praia seria contada por todos nós, os frequentadores, os vendedores de queijo-coalho, os ambulantes, os salva-vidas, os surfistas. De todo este elenco, apenas os surfistas estariam "na crista da onda". Mas eles, os surfistas, teriam uma janela muito resumida de atuação no tempo e no espaço, a onda, enquanto que, por exemplo, o vendedor de queijo-coalho poderia perambular por toda a praia e eu e você poderíamos mergulhar no mar independente de haver ondas ou não, podendo aproveitar um pouco das ondas ou não. Lembre que os surfistas tampouco impulsionam as ondas, mas são levados por elas. Os surfistas não são os "grandes homens" do filósofo Thomas Carlyle, os que fazem a História acontecer. A visão de Tolstoy é oposta à de Carlyle: os "grandes homens" não são "grandes" e são frutos do momento histórico que vivem e a este momento estão presos, tendo bem pouca liberdade de ação. 

Como disse dois parágrafos acima, meu prazer com a leitura mudava quando o trecho era mais literário que historiográfico, por preferir o Tolstoy romancista ao Tolstoy historiador e porque este é menos bom que aquele. Porém, quando havia reflexões sobre a História amalgamadas ao arco de determinado personagem, real ou fictício, o livro era incrível. Ou seja, quando era narrativo, romanesco mesmo. Como mencionado por sua biógrafa, Tolstoy defendia o "direito do artista de divergir dos relatos históricos ao evocar eventos passados". O uso que Tolstoy fez das Guerras Napoleônicas para criar seu romance me fez querer saber menos sobre os mesmos eventos a partir de fontes históricas enquanto eu lia o livro, confesso. Porque a narrativa dele é melhor. Por exemplo, sempre que Napoleão Bonaparte aparece na história, a caracterização dele em tudo contrasta com o que estamos acostumados nos livros de História. Sempre que pode, o romance nos lembra do quão pequeno e mesquinho era o imperador, do quão limitado era o seu papel no fluxo da História (a universal, com H maiúsculo) e no desenrolar da história (a do livro, com h minúsculo). Isto está de acordo com a "filosofia da História de Tolstoy" que expliquei no parágrafo anterior. O narrador de Tolstoy tampouco economiza ironias e sarcasmos quando se refere ao imperador francês. 

Veja esta antítese. Primeiro, o que Eric Hobsbawn diz sobre "o primeiro mito secular" do século XVIII, Napoleão Bonaparte (Hobsbawn nem havia nascido quando Guerra e Paz foi publicado, mas o que ele fala serve para o ponto que Tolstoy tenta provar e para a antítese que eu quero fazer): 

"O extraordinário poder deste mito [Napoleão] não pode ser adequadamente explicado nem pelas vitórias napoleônicas nem pela propaganda napoleônica, ou tampouco pelo próprio gênio indubitável de Napoleão. Como homem ele era inquestionavelmente muito brilhante, versátil, inteligente e imaginativo, embora o poder o tivesse tornado sórdido. Como general, não teve igual; como governante, foi um planejador, chefe e executivo soberbamente eficiente e um intelectual suficientemente completo para entender e supervisionar o que seus subordinados faziam. Como indivíduo parece ter irradiado um senso de grandeza, mas a maioria dos que deram esse testemunho, por exemplo, Goethe, viram-no no auge de sua fama, quando o mito já o tinha envolvido. [...] Pois o mito napoleônico baseia-se menos nos méritos de Napoleão do que nos fatos, até então sem paralelo, da sua carreira. (A Era das Revoluções, Eric Hobsbawm. Tradução de Maria Tereza Lopes Teixeira e Marcos Penchel. São Paulo: Paz e Terra, 2009.)   

Agora, o que Tolstoy diz sobre como os historiadores trataram Napoleão? 

Historiadores falsificam por completo o passado quando (simplesmente porque as ações de Napoleão não foram comprovadas por eventos posteriores) eles representam Napoleão em Moscou como um homem cujo poder estava em declínio. Ele estava se portando exatamente como antes, e depois, em 1813, aplicando toda sua força e suas habilidades para fazer o melhor para si e para seu exército. As ações de Napoleão nesta época não foram menos espetaculares do que foram no Egito, na Itália, na Áustria e na Prússia. Não podemos atestar, com algum nível de certeza,  o grau de genialidade que Napoleão mostrou no Egito, onde quarenta séculos desdenharam dele em sua sua glória, porque todas as suas famosas proezas naquele país nos foram descritas exclusivamente pelos franceses. Não podemos chegar a nenhum julgamento sensato do seu gênio na Áustria e na Prússia, uma vez que toda informação sobre suas conquistas naqueles lugares terá de ser extraída de fontes francesas e alemãs. E a inexplicável rendição de formações inteiras sem uma refrega, e de fortalezas sem cercos, tende a predispor os alemães na direção do conceito de gênio como a única explicação para a guerra da maneira como ela foi travada na Alemanha. Mas nós, graças a Deus, não temos motivo para invocar seu gênio para encobrir nossa vergonha. Nós pagamos pelo direito de olhar os fatos simples e honestamente de frente, e não vamos abrir mão deste direito. 

O contexto acima é: muitos atribuem a derrota do exército napoleônico a esta manobra, a invasão da Rússia. Napoleão queria obrigar os russos a aderir ao Bloqueio Continental para atingir a Inglaterra. Os historiadores dizem que esta manobra atípica foi o motivo de sua queda, enquanto Tolstoy não vê nada de atípico. Tolstoy também diz: 

Isto foi feito por Napoleão, o homem de gênio. Ainda assim, dizer que Napoleão destruiu seu próprio exército porque ele queria assim, ou porque ele era um homem muito estúpido, seria tão errado quanto dizer que Napoleão levou suas tropas a Moscou porque ele queria assim, e porque ele era um homem muito inteligente e de grande gênio. Em ambos os casos, sua contribuição individual, em nada maior que a contribuição individual de qualquer soldado raso, aconteceu de coincidir com as leis por meio das quais este evento estava sendo determinado. 

Pois bem. 

É curioso que Tolstoy tenha pesquisado tanto para escrever Guerra e Paz, tenha consultado tantas fontes e tenha conversado com veteranos da época, para tomar liberdades criativas gigantescas. Por exemplo, é consenso entre historiadores de que os russos, comandos pelo General Kutuzov, empregaram a tática de terra arrasada após a sangrenta Batalha de Borodino. Mas para Tolstoy os incêndios e toda a destruição de Moscou meio que "aconteceram". Ou talvez não seja tão curioso assim. O artista Tolstoy sempre falou mais alto que o historiador. 

Na verdade, é sobre o artista que faço este longo comentário. É com ele que você deveria se encontrar enquanto lê Guerra e Paz, porque tudo que é literário no livro é bem feito. 

Qual é a história do romance? "É sobre a Rússia", como diria a piada outrora popular. Eu vou tentar aqui uma sinopse como se você estivesse lendo sobre os lançamentos literários da semana. 

Em Guerra e Paz, de Liev Tolstoy, nós acompanhamos a vida de quatro famílias aristocráticas russas durante as Guerras Napoleônicas: os Bezukhovs, dentre os quais Pierre é um dos protagonistas da narrativa; os Bolkonskys, entre estes temos o Príncipe Andrey; os Rostovs, meu núcleo preferido, de onde são Nikolay, Natasha e Sônia; e os Kuragins. Há outros personagens marcantes, no total de quinhentos e quarenta e tantos (Denisov, Dolokhov, Berg, Bazdeyev, etc), mas o romance gravita em torno daqueles. A história começa numa soirée, em julho de 1805, na casa de Anna Scherer, uma socialite casamenteira, amiga da imperatriz. Nesta reunião, na qual conhecemos dois dos principais personagens, os amigos Andrey e Pierre, os nobres estão discutindo, mais em francês do que em russo, o avanço inexorável do imperador francês, e comentam a guerra em meio a pompa e muito álcool. O contexto desta festa é o que vamos continuar encontrando ao longo do romance, porque é sob a ótica dos nobres que vamos ler a invasão da Rússia, mesmo quando acompanhamos camponeses e servos: estes estão ligados àqueles. De forma geral, o livro é sobre como a guerra irá impactar na vida de cada um desse meio milhar de pessoas. 

Minha tentativa de sinopse vai parar por aí mesmo. Porque não há resenha tradicional capaz de dar conta de Guerra e Paz. O que posso fazer é falar de alguns aspectos do romance que mais me intrigaram e da experiência de leitura que o livro me proporcionou. 

Uma das melhores características de narrativas longas, pelo menos para mim, é poder acompanhar os relacionamentos dos personagens, que acabam convivendo conosco também durante toda a leitura. Àqueles dois personagens, que começam o romance tão opostos, Andrey, o bem-nascido, cínico e arrogante, e Pierre, o bastardo, idealista e atrapalhado, soma-se Natasha Rostova, uma criança de treze anos em 1805, quando o livro começa. Este é o trio cujas vidas mais veremos ao longo do romance e é por causa deste trio que, sem querer dar um spoiler indireto, eu entendi quando Jonathan Franzen disse numa entrevista que estava tentando escrever o mesmo livro, Guerra e Paz, quando escreveu Liberdade. O desenvolvimento deste trio e dos demais personagens me acompanhou por meses. Uma convivência mesmo, intensa como só um mestre da literatura com uma narrativa longa pode proporcionar. Como brasileiro, diria que é semelhante à convivência que vemos entre telespectadores e personagens da novela das oito, que entram na nossa casa ou que encontramos nas conversas da padaria. Hoje em dia, essa semelhança ganhou um reforço graças ao mundo online, porque mesmo que ninguém que eu conheça estivesse lendo Guerra e Paz ao mesmo tempo que eu, nem eu estivesse fazendo parte de um clube do livro dedicado ao romance, eu meio que pude experimentar uma espécie de leitura compartilhada graças aos memes. A cada nova, digamos, "aventura" de Nikolai Rostov, irmão mais velho da Natasha e o personagem de que mais gostei, eu pensava "Nossa, eu preciso ver o que estão falando disso no Reddit"-- e, para evitar spoilers, depois que eu concluí a leitura eu pude conferir. 

Pondo de lado as passagens historiográficas, e mesmo assim nem todas, para ser honesto, o romance é extremamente fácil de ler. A literatura do livro é... simples, genial. É um livro enorme e, ao mesmo tempo, não é palavroso. Tudo se encaixa. As cenas românticas são tocantes, as cenas espiritualizadas cumprem seu papel, as passagens sobre o cotidiano, tanto as domésticas quando as dos acampamentos de guerra, são surpreendentes. Todas as cenas de guerra e de caça são de uma cinematografia de tirar o fôlego (a gente só percebe que estava prendendo a respiração quando o capítulo acaba). Eu lembro quando estava ainda no começo do livro, numa inspeção das tropas russas em Braunau, quando eles têm de queimar uma ponte para conter os franceses, que estavam avançando, Nikolay Rostov tem seu batismo de fogo e tenta não se acovardar, já ali é nítida a diferença de como uma cena de batalha pode ser escrita e os desdobramentos dramáticos para os personagens envolvidos. 

Um observação extra. Hoje, acabamos de sair, aqui no Brasil, de uma pandemia, que em termos históricos foi ontem, e de nos despedir de um governo autoritário e obscurantista, que também foi ontem. Hoje, nos noticiários, o que mais vemos são a confirmação de uma autocracia trumpista, a continuação de uma guerra na Europa, a perpetração de um genocídio e a eclosão de mais um grande conflito no Oriente Médio, isso sem contar com as nossas mazelas de violência estrutural. Muitas situações de exceção, ou "fatos históricos" como dizem os memes da internet. Isso tudo podendo ser visualizado em tempo real e em alta definição, podendo ser visto e revisto, com ou sem som. Estas situações de exceção estão disponíveis para consumo em plataformas audiovisuais, na palma da nossa mão. A minha geração teve seu primeiro conflito midiático com o Jornal Nacional retransmitindo as imagens da CNN da Guerra do Golfo, em 1991. "A guerra explode no Golfo Pérsico", dizia Sérgio Chapelin, seguido por imagens de mísseis lançados de porta-aviões na escuridão do mar noturno. Desde então, mais e mais imagens, cada vez mais definidas e em movimento, estão disponíveis para nós, a todo instante, para testemunhar nossas catástrofes. Mas por que digo isso tudo? Porque sempre fico intrigado com cenas de ação e cenas de "fatos históricos" narradas em épocas anteriores ao audiovisual, como o que Euclides da Cunha faz n'Os Sertões e como Alexandre Dumas faz n'Os Três Mosqueteiros com cenas de ação. No caso deste comentário, o que Tolstoy faz em Guerra e Paz. O poder da escrita de fazer algo visualmente atraente e, ao mesmo tempo, dramaticamente importante para os personagens, numa época onde a imaginação que era primordial. Como professor dos anos finais do ensino fundamental, eu vejo o quão adictos estão todos eles, meu quase quinhentos alunos, às imagens de tela e como eles já veem o mundo de um jeito próprio, um mundo através de pixels. Pois quando Tolstoy escreveu Guerra e Paz, ou quando Dickens escreveu Um conto de duas cidades, eles viviam num mundo no qual a arte de contar histórias dependia exclusivamente da palavra, seja escrita ou falada. Resumindo: era literatura num mundo onde ela cabia, onde a imaginação do leitor era um músculo poderoso, pois era um mundo concebido pelo que era contado. Hoje, um mundo concebido a partir de pixels. 

Há muitas cenas famosas no livro, cenas com as quais nós já esbarramos por aí, noutras leituras ou vivências. Como a do urso, por exemplo, que acontece no início do livro (tudo que acontece nas primeiras trezentas páginas ainda é "início do livro") e que foi uma das primeiras que ouvi quando trabalhava naquele sebo da minha adolescência.  A cena é muito importante para estabelecer a reputação de Pierre na sociedade tanto de Moscou quando de São Petersburgo. É, sim, uma parte muito divertida da história, que acontece no meio de uma sequência também muito boa, que é uma aposta etílica na qual Dolokhov toma parte, outra cena inflamável, com o perdão do trocadilho. Estas passagens eu li tendo meus gatos como testemunhas, no conforto do meu quarto, antes de dormir.  Tal como uma bíblia, eu vivi com este livro debaixo do braço e por isso muitas cenas desta convivência foram marcadas pelo contexto ao redor. As manchas de chá no livro foram conquistadas neste horário, enquanto tentava ler e acariciar meus gatos com uma xícara nas mãos. Outra cena famosa é a caça aos lobos (Tolstoy era adepto à caça), na qual nós, os leitores, podemos experimentar a caça pelo ponto de vista dos cães. Eu tive de ler esta cena três vezes porque da primeira vez eu estava no intervalo do trabalho e um dos meus alunos passou pela janela gritando a plenos pulmões: "HELLO MY FRIEND MR RABBIT!", o que me roubou a concentração e  deixou no lugar a vontade de aplicar cascudos. 

Mais uma cena famosa, já mencionada, é a da tal "iluminação" do Príncipe Andrey. Toda esta sequência eu li num pub, o que contribuiu para a mancha de cerveja na capa. Minha esposa estava na cervejaria a trabalho, ela é cantora, e eu sempre a acompanho, só que desta vez carregando um Tolstoy. Eu lembro de passar por aquilo tudo, a tal "iluminação", mal conseguindo acreditar que "aquilo" estava acontecendo, sem spoilers. Quando o capítulo chegou ao fim, eu, chocado e arrebatado, não conseguia acreditar na experiência literária que acabara de ter. Eu me sentia só, muito só, dilacerado e encantado na mesma medida, enquanto as pessoas ao meu redor bebiam e dançavam "Bad Romance", da Lady Gaga. Quando eu leio durante as apresentações da minha esposa, sempre chega alguém para interromper a leitura, muitas vezes com a indiscrição de que ali não é lugar para ler, mas outras também impressionados com a capacidade de concentração. Naquela noite não foi diferente, mas o motivo era, é claro, o tamanho do livro na minha mão. "Você tá animado aí com esse livro, hein?", me disse um anônimo alcoolizado, mas simpático. Nós rimos, ele brindou comigo e sumiu na multidão. Eu não consegui mais ler naquela noite, me juntei aos dançantes. 

Tolstoy tinha muitas manias em série, um maníaco serial. Já idoso, conseguiu a licença necessária para ter e andar de bicicleta; se tornou um entusiasta do ciclismo, seguindo seu hábito arraigado da prática de atividades físicas. Houve uma outra época em que desenvolveu uma apaixonite pela fabricação artesanal de sapatos. Ficava costurando sapatos de couro. Por uma outra vez, mais jovem, foi a vez da paixão pela apicultura. Como com todos estes exemplos, passou alguns anos monomaníaco pela criação de abelhas. Vem desta obsessão outra cena famosa de Guerra e Paz, que é a Moscou abandonada após a Batalha de Borodino. As descrições da cidade abandonada e destruída tal qual uma colmeia sem abelha-rainha são incríveis. A biógrafa Rosamund Bartlett diz inclusive que as traduções não chegam a fazer justiça, nesta passagem, à escolha de palavras que Tolstoy fez, porque usou termos técnicos russos da apicultura que costumam se perder quando traduzidos. Mesmo assim, é um capítulo inesquecível: a desordem da Moscou em chamas mimetiza a da colmeia não só pela falta de um poder central, a abelha-rainha, mas também pela desarmonia entre os indivíduos que, juntos, escrevem a História, cada um contribuindo de maneira igualitária para a vida da cidade (abelha-rainha, operárias e zangões, no caso da colmeia). Mais que isso eu não posso falar para não tirar o prazer da leitura. 

Ainda de acordo com a biógrafa Rosamund Bartlett, Tolstoy nunca foi à praia. Nem, que eu lembre, Natasha Rostova, uma das protagonistas do livro. Acompanhamos a vida dela desde treze anos e ela tem um arco narrativo riquíssimo. Uma adolescente, cujo amadurecimento vem durante a guerra a base de escolhas muito equivocadas, típicas de adolescentes, influenciadas por pessoas que nem sempre são exatamente bondosas. Já perto do fim do livro, quando vemos uma Natasha bem diferente, madura e responsável, eu via esta Natasha em Porto de Galinhas, para onde ela e os demais personagens haviam viajado comigo e com a minha esposa. "Livro na praia, é?! Cada um na sua, né não?", disse um bem-humorado vendedor de pipas que passou por nós, enquanto eu tentava ler e comer camarão ao mesmo tempo. Foi assim que o livro ganhou algumas manchas de gordura e grãos de areia. 

É muito difícil falar deste livro sem dar spoilers. Também é muito difícil falar o necessário sem tirar o prazer da leitura. Mas eu fiz o que pude. Este é só um comentário, uma recomendação. Obrigado por ter lido. Caso você comece a ler Guerra e Paz a partir desta recomendação, aí é você quem vai me agradecer. 

Ciao. :) 



29 de maio de 2025

nota_224

Essa é uma rede [Substack] muito melhor para nós. Por “nós” você entendeu, eu sei, e não vou me deter nisso por enquanto. Há muitos monólogos, claro, e eu gosto da maioria deles, mesmo quando não parecem dispostos a serem pontos de conversa mas receptáculos de likes. Até estes são legais de ler. Mas há outros depoimentos, mais confessionais e carregados ou, na direção oposta, mais triviais e carinhosos que tornam a visita a esta rede mais significativa ou agradável, ou ambos.

Por exemplo, acabo de ler um destes textos falsamente triviais e super fofos que apareceu aqui para mim. Uma mãe-leitora, que estava nas nuvens, escreveu que sua pequena cria-leitora de onze anos acabara de ler um livro e estava, a cria, recomendando a ela, a mãe, este livro com todas as forças. Nesta sugestão de leitura, todo um universo próprio. Eu também estaria nas nuvens.

Quando chega, esse momento é muito especial e você tem que mostrar isso pro mundo. Se houver mais exemplos disso por aqui, adoraria lê-los.

Quando estava entrando na adolescência, minha filha leu The Great Gatsby, de F. Scott Fitzgerald. É um dos meus livros prediletos e eu vivia o recomendando a ela. Na verdade, pais-leitores vivem recomendando livros pros filhos, às vez de forma sufocante — e mesmo assim a fofura do gesto é inquestionável e não ouse discordar. Pois ela leu, gostou e emendou noutras leituras, como The Picture of Dorian Gray, de Oscar Wilde e mais uma lista que deixaria qualquer pai orgulhoso, nas nuvens, planando na Via Láctea.

A partir deste caminho próprio que ela começou a trilhar, sugestões dela começaram a aparecer. Uma destas sugestões foi The Secret History, de Donna Tartt. Ela leu (e releu) e disse que eu “TINHA QUE LER” de qualquer jeito — e por um momento eu li enquanto ela mesma me observava lendo.

Eu já conhecia a autora de nome, ouvi e li boas críticas sobre ela depois do lançamento de The Goldfinch, de 2013 (minha filha nasceu em 2006), mas ainda não havia batido em mim um interesse real nesta leitura. Até minha filha dizer que eu precisava ler e que eu gostaria do livro.

Pois eu li e hoje é um dos meus prediletos e Donna Tartt uma das minhas autoras favoritas, de maneira que Tartt virou a padroeira da casa (minha esposa também leu o livro e adorou).

É um momento muito mágico quando sua cria sente que todas aquelas horas que ela passou em silêncio, com a cara num livro, também vão ser horas de prazer pros seus pais. O mais bonito disso tudo é que, por conta de tantas palavras que uma autora colocou num papel, depois da leitura a cria precisa de bem poucas para dar o recado: “Não falei que era bom?”.

14 de julho de 2020

nota_223: Ficção em família


“Perfurei você no momento mais lúcido da minha vida. E só lamento uma coisa. Eu queria mesmo tê-lo enforcado.” É assim que termina um dos melhores contos de Fabiano Costa Coelho no livro _Minha mãe e outras mulheres_ (Confraria do Vento, 2017). É um livro multifacetado, com poemas e contos de vários vernizes, de ficção científica a exercícios estilísticos ora pomposos ora modernos, e com muitas temáticas, tendo como temática predominante o sexo. Muito, muito sexo. Mas isto, para quem conhece este autor de sobrenome Coelho, já era de se esperar. Eu vou lhe explicar.

Quando você lê ficção, principalmente se você também escreve, você tem aquela vontade, às vezes pouco moderada, de saber de onde vem _aquilo_ que está lendo? O que levou a pessoa que escreveu a colocar _aquilo_, _daquele_ jeito, sobre o papel? A pessoa que escreve está sujeita a todas as suas vivências, à sua época, ao seu contexto e é na combinação destes elementos todos que está a origem dos seus temas. Como estes temas depois serão trabalhados na obra é que é o trabalho do artista.

Podemos dizer também, acenando à psicanálise, que a maneira como aqueles temas serão reelaborados ou contraelaborados numa obra de ficção, ou em qualquer obra artística, é que fará a obra ter mais ou menos apelo. Há esta química entre a obra e quem a aprecia que é incitada pelo quanto da pessoa criadora a obra está impregnada. É a esta humanidade na qual a obra embebida que nos conectamos. _Aquilo_ da vida da pessoa que cria é transformado _naquilo_ que vemos e apreciamos na obra — desde que esta obra ganhe vida com alguma técnica atraente. É claro que, para apreciar a mágica, não é necessário saber se o coelho já estava na cartola antes do espetáculo começar, o truque vale pelo truque; mas conhecimento é sempre bom e entender por que se usa um coelho e não um gato é uma grande epifania — para quem gosta de mistérios óbvios.

Quando se conhece o autor e com ele se compartilha de alguns trau… Algumas vivências. Quando se conhece o autor e com ele se compartilha algumas vivências, apreciar a obra dele, no caso, ler o livro dele é como ter a falsa segurança de que se conhece _aquilo_ na obra já reelaborado pelo processo criativo. Ainda na falsa suposição de segurança, é como ver o mágico realizando o truque, perceber o quão crível é a encenação e, ao mesmo tempo, achar que enxerga todas as engrenagens por traz da ilusão.

É muito mais fácil ler a obra de quem não conhecemos intimamente. Antes de retornar ao livro de Fabiano Costa Coelho, aí vai o contexto que você precisa. 



Eu e o autor somos primos. Eu, Guilherme filho de Guilherme. Ele, Fabiano filho de Fábio. Ambos somos pernambucanos. Eu, recifense de Casa Amarela. Ele, jaboatonense de Piedade. Nossos pais tiveram um grupo teatral histórico em Olinda, Pernambuco, chamado Vivencial Diversiones. O pai dele, bailarino, era o coreógrafo. Meu pai, o diretor do grupo. Ambos também eram atores. Atrizes no mesmo grupo também foram nossas mães. O filme _Tatuagem_ (2013), de Hilton Lacerda, é baseado neste grupo. Irandhir Santos interpreta Clécio, que é inspirado no meu pai. Sylvia Prado interpreta Deusa, que é o amalgama de nossas mães. Há uma criança no filme, num personagem chamado “Tuca”, um menino que é a junção das crianças disponíveis à época, eu e minha irmã Juliana. Foi neste teatro que nasci. É sobre este teatro que converso com meu pai. Foram as histórias deste teatro que ouvi da minha mãe, sobretudo quando ela, Juraci, deixou os palcos. A mãe de Fabiano, Suzana, continuou atriz até hoje, uma tia que adoro demais. Eu e meu primo não tivemos o tanto de convívio que eu queria quando éramos crianças. Mas era sempre muito frenético quando nos encontrávamos e temos muitas histórias para contar. Ele era meu ídolo, meu "primo rico”, que morava na praia, conhecia os Estados Unidos e tinha um Master System II. Quando jovens adultos, no início dos anos 2000, já em Brasília, passamos a conviver mais. Moramos sob o mesmo teto, na casa de uma tia, em momentos muitos distintos das nossas jornadas pessoais. O humor pernambucano, o amor pela literatura e uma inesperada cinofilia eram as coisas que então tínhamos em comum. Mais em comum. Poucos anos depois, a inexorável vida adulta fez a parte dela e nosso convívio ficou mais raro, mas não menos afetuoso. Hoje, nos vemos uma ou duas vezes ao ano.

Aí está, em resumo, o vínculo histórico e familiar que alterou a maneira como enxergo o livro de Fabiano. Antes, este vínculo me impedia de escrever sobre Minha mãe e outras mulheres, por dificultar que eu tenha o distanciamento necessário para comentar a obra de outro escritor. O tal _aquilo_ que mencionei, a tal humanidade a que nos conectamos em contato com a obra, já vinha acompanhado de memórias que eu mesmo vivi. Quando li o livro pela primeira vez, tudo — ou quase tudo — o que eu via eram pedaços da vida do meu primo, suas questões familiares, a presença da avó, o convívio com o padrasto, o amor à mãe, tudo isso transformado em arte. No entanto, diante da impossibilidade de dissociar o autor da obra, sobretudo por compartilhar algumas vivências com ele, agora é o mesmo vínculo que me faz escrever sobre a obra dele, porque é a partir deste vínculo que escrevo.

Bem, aqui eu lhe peço que relembre a analogia com um número de mágica: apreciar o truque, perceber a encenação, enxergar as engrenagens. Eu não consigo ignorar as engrenagens que acredito ver por trás da obra.

O autor é uma pessoa muito teatral. Digo, muito histriônica. Há no livro o conto “Margareth”, encenado pelo próprio autor neste vídeo: veja para entender do que falo. Eu não consegui ler os demais contos sem imaginar o próprio Fabiano os encenando para mim. A extroversão sempre foi uma das características mais marcantes do autor, que, além de ter um talento nato para a comédia, é um exímio passista de frevo de intelecto privilegiado. Esta extroversão, embora natural, ajuda a maquiar outra característica dos homens Coelho, que é uma fragilidade infantil que perdurou até a vida adulta. Eu, ele, nossos pais, meu irmão, todos em alguma medida temos esta característica; ou a mim esta característica parece evidente, já que a percebo sob a ótica da intimidade familiar. Também é uma característica que exige um uso reforçado de máscaras sociais. Todos nós as usamos, eu sei, mas algumas máscaras são mais grossas que outras, como escudos para impedir as investidas do mundo contra feridas que não sararam direito, se é que um dia saram. Outras máscaras são mais chamativas, extravagantes, para também levar a atenção do mundo para longe de onde ainda dói. Toda a teatralidade natural do meu primo me fez ver onde estiveram (estão ainda? Estavam?) as dores que ele carrega nos seus contos.

Sexo (bastante), abandono, racismo, presença materna, memória — são os temas recorrentes nos contos de _Minha mãe e outras mulheres_. No conto “Iago”, um homem de programa fala de educação sentimental e empreendedorismo. Em “Emília", um heteronormativo usa a verdade para iludir e levar Emília para uma “trepada ciclópica”. “Fina Arte”, um breve manual de como apreciar melhor a atividade sexual dos vizinhos (é bem divertido). “O Trem”, um bem elaborado relato de abandono. “Casa da Árvore”, um excelente truque literário sobre traumas. Há também investidas em ficção científica e os poemas, a maioria relacionada àqueles temas. Eu consigo ver o meu primo através do livro, às vezes de forma explícita, mas no mais das vezes de forma reelaborada. Sei, no entanto, que seria difícil ver Fabiano no livro para quem não o conhece.

Ainda preciso falar de dois contos. Um deles é “Infanta, por ela mesma”. É deste conto que vêm as palavras com que comecei este texto. A narradora se expõe em vingança à memória do marido opressor já morto. Uma narrativa muito carregada, pesada. O outro conto é “Soldadinho”, o mais longo do livro e no qual é possível ver várias partes da história do meu primo. Ambas as narrativas estão recheadas de elementos que já conheço nos bastidores; porém, ambas as narrativas valem por si mesmas independente do que se saiba da vida do autor (e é para ser sempre assim, inclusive). Estes dois contos, da maneira como foram escritos, foram os que mais me ligaram à humanidade neles exposta. Esta é uma das coisas que a literatura proporciona, a conexão. Espero que você sinta o mesmo durante a leitura, com o inevitável distanciamento ou desconhecimento da vida do autor. Eu mesmo não posso falar de outra forma e foi um grande desafio ler a ficção de uma pessoa que eu amo e julgo conhecer bem. As verdades gritam sem parar, mesmo sob máscaras.

26 de junho de 2020

nota_222: Estela sem Deus

Publiquei primeiro no Posfácio.

“Desconfiei de que aquilo que minha mãe fazia, nunca parar a vida por causa do pranto, era uma espécie de milagre”, diz Estela, a protagonista do romance Estela sem Deus, de Jeferson Tenório, escritor radicado no Rio Grande do Sul. O romance em primeira pessoa, de 206 páginas, é a história da adolescente Estela, gaúcha, que migra para o Rio de Janeiro um pouco antes das eleições de 1989. Conhecendo o Brasil que existiu de Collor a Bolsonaro, um suposto decolar democrático para uma aterrissagem proto-fascista, o livro de Tenório é sintomático não só para o Brasil de hoje como para o de sempre, infelizmente.

A narrativa de Estela começa em algum ponto da infância e vai até o final da adolescência, contando como Estela reage à sequência de violências e desamparos a que ela, a mãe e o irmão são submetidos. Para todos esses acontecimentos, Estela oferece uma postura questionadora e pensativa, não de quem sabe ou pressente o que virá depois, mas de quem desconhece de fato o que lhe acontece e, ao mesmo tempo, pode contar com um mecanismo inato de avaliação. Como na cena acima, na qual (evitarei spoilers de qualquer natureza) vê sua mãe seguindo em frente após um revés. O milagre que Estela atribui à força da mãe também pode ser conferido à própria percepção arguta que a garota tem da vida.

Numa das primeiras passagens do livro, Estela é apresentada à morte. A avó e o irmão, Augusto, a acompanhavam neste encontro. À avó, ela pergunta “o que acontece durante morte”, ao que a avó responde que “na morte, não há um durante, apenas um estar e não estar vivo”. Estela seria apresentada à morte mais vezes durante a narrativa, sempre protegida por este escudo reflexivo (e não refletidor). Querer ver o durante da morte é um dos traços mais marcantes da psicologia da personagem, que perscruta todos os acontecimentos da sua vida jovem de forma inédita para si mesma e sem necessariamente se impressionar com este… “dom”. É este dom que a faz sobrepujar os temas que se repetem no livro. Estela é apresentada à violência, ao desamparo, à fé e à resignação e em todos estes encontros, por mais que pareça sucumbir, ela pode contar com esta capacidade de pensamento que lhe é própria.

Às vezes, durante a leitura, é como se Estela fosse uma chama pequena e recalcitrante, sobrevivendo a uma série de soterramentos. Esta impressão é acentuada pela maneira como Tenório criou a voz de Estela: ela narra sua história de forma simples e sensível, sem grandes acrobacias filosóficas, por mais agudos que sejam os questionamentos da filósofa Estela. É uma leitura altamente recomendável para adolescentes sobre uma heroína adolescente.

Estela tem um irmão, Augusto. No início, ambos parecem ter este tino inabalável do pensamento, uma arma que precisariam usar para lidar com as adversidades a que são apresentados. No entanto, ao encontrarem um desamparo, Augusto, que até então se assemelhava à irmã nas habilidades filosóficas e dela se distanciava no quesito humor (ele é o engraçado da dupla, mesmo que a irmã o considere um “babaca”, quase sempre com razão), Augusto cede ao ópio comum dos desamparados, a religião, de forma irreversível (até onde é possível saber). O mesmo menino que numa zuêra implicante já apresenta uma leitura do mundo inevitavelmente precoce e perspicaz, quando brinca com a irmã dizendo que nunca viu uma “filósofa preta”, sucumbe à anestesia da religião. Ou ao conforto da religião, porque algum conforto é preciso.

Por outro lado, Estela, mesmo que sob a influência aparente do divino, que é quando convive de perto com a religião, não esconde de si mesma o que pensa sobre Deus. Tendo já olhado uma das piores faces do homem, Estela descobre "que Deus [também] era minha mãe segurando uma faca”.

A personagem é uma das tantas filósofas engolfadas pela opressão racista e aporofóbica. "Nunca parar a vida por causa do pranto era uma espécie de milagre”: a própria Estela é um milagre.


Estela sem Deus
Jeferson Tenório
Editora Zouk
Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 2018.

24 de junho de 2020

nota_221: A construção da paisagem


A umidade do ar é famosa, atingindo percentuais inclementes para quem nunca visitou um deserto. Árvores de troncos retorcidos, de cascas grossas e de folhas peludas saem do solo tentando vencer a gravidade, mas se contorcem de tal forma que é como se o calor as empurrasse novamente em direção ao chão. O vermelho da terra é onipresente, acrescentando uma dose de drama por todo o canto, como se a temperatura fustigasse a terra a ponto de ela sangrar. Aqui, no cerrado, não há a densidade da mata úmida, escura, como uma floresta de ameaçadora saída de um romance de Jack London, ou como uma testemunha em transe imemorial, como vista numa novela de Joseph Conrad.

Olha, o cerrado é diferente. A flora se compadece de nós. As árvores baixas, secas e cascudas reproduzem nosso próprio gestual de estafa sob este clima seco. São nossas companheiras de jornada nesse drama climático. Árvores e arbustos que já parecem cansados ao amanhecer, ao meio-dia se assemelham a famélicos rastejando em busca de abrigo, ao entardecer são severinos esgotados, tais como os candangos que vieram para cá há sessenta anos, e à noite se petrificam, desalmadas, sob a luz do céu noturno.

A deficiência nutricional de um solo com excesso de alumínio, a frequência dos incêndios e um escleromorfismo não-sei-o-quê são os responsáveis por produzir esta flora (ou uma combinação de elementos semelhante a esta, a partir do que lembro do ensino fundamental). Em fotos, os galhos retorcidos de um embiriçu sem folhas ou o tronco encouraçado e protuberante de um pequizeiro, especialmente quando à luz dura e implacável do meio-dia, contam uma história de açoitamento diário, do qual estas árvores saem tão laceradas quanto elegantes. O cerrado savânico, aos olhos de um fotógrafo, é uma multidão de arbustos estáticos, estóicos, indiferentes à secura, aos fogos e às chuvas. Um biólogo explicaria essa paisagem de outra forma, seguindo os rigores da ciência, explicando o quão integrado ao bioma cada um dos seus elementos naturais está, mas eu mesmo tenho vontade de chegar perto de uma caliandra e, sentindo todo o vermelho dos estames dela penetrando na minha retina, falar: “Você, tão delicada, enfrenta os castigos deste clima com muita elegância. Posso fazer uma foto sua?”

Foi esta paisagem bruta e milenar que viu, impávida, um colosso de concreto, piche e tijolos ser construído ao longo de quase quatro anos: Brasília. A capital de um país construída no meio do nada. Um feito de engenharia tão inacreditável quanto desumano. Como foi para os mercúrios-do-campo sobreviveventes à terraplanagem olhar os anexos do Congresso Nacional, torres gêmeas e impossivelmente retas tocando o céu sem nuvens? Num piscar de olhos em termos geológicos, uma nova paisagem foi construída, repleta de linhas e ângulos e volumes irreais, jamais vistos na natureza. Hoje, novas volumetrias compõem esta paisagem, mesmo que nem sempre haja harmonia entre o naturalmente formado e o construído por humanos (retornaremos a este ponto em alguns instantes).

Há a paisagem de um lugar e há recortes desta paisagem que compõem a memória e a identidade do tal lugar. Por exemplo, imagens de araucárias têm um lugar afetivo para os paranaenses, que fizeram desta árvore um dos seus elementos identitários. Decalques de araucárias são comuns na linguagem visual de padarias, postos de gasolina, hotéis e hotéis fazenda, farmácias, escolas e de toda sorte de estabelecimentos que compõem o cotidiano da “Rússia Brasileira” (araucárias também são motivos recorrentes nos famosos _centros de tradição gaúcha_, os CTG’s, agremiações populares em toda a região sul do país). Por todo o estado do Paraná, troncos com até cinquenta metros de altura ostentando copas em formato de candelabro — eu sempre me impressiono ao ver uma araucária.



A mesma relação entre paisagem e identidade que há entre paranaenses e araucárias também existe entre cariocas e o Pão de Açúcar e demais rochedos, pedras em torno das quais o coletivo humano se espalhou e aos quais se adaptou. Esta, uma relação entre paisagem e identidade já há mais tempo familiar aos brasileiros. Ocorrem à memória outros exemplos, como o do cedro aos libaneses, que o têm na bandeira nacional, ou a folha de samambaia aos neozelandeses, a bandeira não-oficial do país, símbolo dos All Blacks, a poderosa seleção nacional de rugby. Araucárias, rochas, cedros, samambaias — elementos de paisagem que são repositório de memórias, coletivas e individuais, e signos de identidade.

Para o brasiliense, também há elementos de paisagem que formam a memória afetiva local. Um deles, o primeiro dos três que vou mencionar, é o céu, ouvido em todo tipo de canções e rotineiramente mesmerizante para os habitantes do planalto central. De muitos pontos da cidade, é possível ter 360 graus de abóbada celeste, um luxo visual, sem dúvida. Duas vezes por dia, quando o sol nasce e quando se põe, o habitante da capital federal é premiado com espetáculos multicoloridos; e entre o alvorecer e o anoitecer, durante a estiagem, uma imensidão azul sem nuvens cobre o cerrado. Esta abóbada celeste, este “céu de brigadeiro” irretocável, comporia o domo perfeito dos terraplanistas mais fetichistas.

O segundo elemento paisagístico que compõe o patrimônio imagético do brasiliense, e vou usar esta palavra no singular para simplificar a redação, é o _prédio_. Sabe os exemplos anteriores que citei, as araucárias para o Paraná e a folha da samambaia para a Nova Zelandia? Pois para o brasiliense os personagens de paisagem presentes em todo lugar são prédios. O Congresso Nacional, a Ponte JK, a Torre de TV, a Torre de TV Digital, a Catedral Metropolitana, o Palácio da Alvorada, o Museu da República — estas e outras arquiteturas compõem a identidade paisagística local e são usados na linguagem visual de quase _tudo_: de escolas a motéis, de padarias a boates, de bares a centros religiosos, etc. São também os cenários recorrentes de editoriais de moda, _books_ de noivos, chamadas jornalísticas. São os pontos turísticos _naturais_ da cidade, e usar a palavra “naturais" aqui faz todo o sentido; são também o patrimônio estético da cidade e, ao mesmo tempo, sua própria identidade. O que a arquitetura representa para a capital federal, e para a nossa própria cultura brasileira, é matéria para outra crônica. Mas ela se relaciona com o nosso terceiro elemento, que é o nosso assunto: o canteiro de obras.

Um formigueiro humano foi transportado para o planalto central para fabricar esta paisagem e deste acontecimento surgiram imagens que fazem parte da cultura brasiliense. As fotografias da construção de Brasília têm aquele encanto das grandes mobilizações humanas, o que de fato foi. A construção da nova capital federal envolveu todos os tipos de engenharias, artimanhas e propagandas, e nestas podemos incluir o uso de algumas palavras de Dom Bosco, transformadas em profecias e utilizadas para atrair os trabalhadores braçais que de fato ergueriam a cidade, cognominados “candangos”. Todo o espírito daquela falsa utopia estava muito mais sintetizado nas imagens dos canteiros de obras do que em quaisquer discursos que Augusto Frederico Schimdt tenha escrito para Juscelino Kubitschek. Naqueles canteiros, brasileiros necessitados, iludidos e cheios de esperança tentavam construir algum futuro.

Brasília é uma das poucas capitais mundiais (a única?) a ter registros de sua concepção, o projeto do “Plano Piloto" feito por Lúcio Costa; de sua gestação, as imagens dos canteiros e da construção; e do seu parto, as da sua inauguração. Como fotógrafo, dentre estas imagens sempre me atraíram mais as dos canteiros. Aqui cabe falar bem pouquinho sobre o fazer fotográfico.

Todo fotógrafo tem seu próprio evangelho para fazer seus cliques. Isto é o tal _olhar_. O olhar de cada um, a razão por que dois fotógrafos jamais conseguiriam fazer fotos idênticas, mesmo que com o mesmo equipamento, sob as mesmas condições e ao mesmo tempo. Um porquê com frequência inefável. Tudo o que vivemos (tendo ou não digerido as vivências) até o momento de pressionar o disparador conta como seu evangelho pessoal, transmutado, ao momento do clique, na escolha de fotografar aquele determinado sujeito, com aquela intenção e daquela maneira, de acordo com todo o conhecimento técnico dominado naquele instante. Há também a projeção. Fotografar é projetar-se. Há algo em quem opera a câmera que passa através da lente e atinge o sujeito fotografado, e o mesmo algo retorna atravessando a lente e penetra no fotógrafo, traçando uma lemniscata entre os dois extremos da lente. A escolha do assunto a ser fotografado já é ditada por esta projeção. Para quem escreve e fotografa, há um paradoxo ao comparar as duas formas de expressão: são idênticas, mas uma não substitui a outra. Este texto é uma tentativa de juntá-las, ao tratar da construção de uma nova paisagem (retomando o que indiquei no quarto parágrafo).

Brasília não é uma cidade para flanar. A borboleta (e não avião) desenhada por Lúcio Costa é extensa de menos para carros e de mais para caminhantes. Somado às dimensões da cidade, excruciantes para o _flaneur_, há o problema da mobilidade urbana: a capital federal é péssima nisso. Brasília é um museu ao ar livre para ser visitado de carro, cobrindo longas distâncias para apreciar cada obra de arte permanentemente exposta: assim a vê quem é fotógrafo de paisagens e estruturas e amantes praticantes ou apenas amantes de arquitetura. Desta forma, podendo ignorar a (falta de) mobilidade, a experiência visual de Brasília é outra. Não consigo abrir mão da metáfora do _museu ao ar livre_, por mais batida que seja. O fotógrafo-cronista se desloca muito de uma obra à outra, sempre impressionado com a adequação de cada prédio ao seu respectivo contexto — e aqui peço que compare o prédio e seu contexto à já mencionada caliandra e seu hábitat. “Posso fazer uma foto sua?”

Um punhado de artistas assinaram as obras aqui expostas, Oscar Niemeyer sendo o mais famoso deles. Mas há também João Filgueiras Neto (“Lelé”), Rodrigo Brotero Lefèvre, Mayumi Watanabe e outros que deixarei de citar mesmo ao risco de ser injusto. Estes nomes assinam obras já incrustadas sobre o planalto central, obras prontas e acabadas, resistindo ao tempo e ao clima e que estão ao alcance das lentes de todos nós. A perenidade da obra arquitetônica é um dos seus aspectos mais fascinantes. Poder construir algo que irá alterar a paisagem “para sempre”? É uma responsabilidade descomunal, visto que a paisagem é um bem comum e as construções erigidas sobre ela farão parte das vidas das pessoas de incontáveis formas, assim como o fazem os naturais rochedos e cedros e araucárias sobre os quais já conversamos. Respeito os saberes do arquiteto, que precisa ter conhecimento técnico, consciência ecológica e apuro estético — resumindo um leque tão amplo de conhecimentos em apenas estes três, estou me dedicando mais ao terceiro, que é o ressaltado pelas fotos. O apuro estético é o que veste a obra e é como ela se apresenta, todos os dias, ao mundo. Ele compõe a paisagem. Como seria, então, documentar a construção de uma nova paisagem?

Acompanho a construção de um templo, projetado por um escritório brasiliense que tem como referências criadoras o grandioso Tadao Ando, o referido Lelé e o laureado Paulo Mendes da Rocha. O primeiro, um mestre minimalista, sobretudo na construção de igrejas; os dois últimos, nossos melhores arquitetos de traços brutalistas. Três influências palpáveis na concepção do templo em questão, que levou a sério o conceito de “paisagem construída”. Por se tratar da construção de um templo, a perenidade aqui é mais, digamos, perene. Veja, casas são demolidas, mas um templo raramente o é, sobretudo quando falamos de um templo feito para adorar a uma das religiões abraâmicas. Este templo, esta igreja, estará aqui virtualmente _para sempre_. Um dia, quando estiver pronto, este templo guardará a mesma relação que araucárias e caliandras têm com seus arredores. Entretanto, enquanto escrevo este texto e fotografo o seu canteiro de obras, o templo é um processo. Considerando o processo uma coisa em si mesma, é engraçado pensar que para erigir uma coisa que durará para sempre é necessário fazer outra que é finita em cada uma de suas partes, por menores que sejam. Quando pronto, o templo terá uma vida própria, habitado por fiéis, fustigado pelo clima e acariciado pelos astros. Mas até lá, cada etapa de sua construção é efêmera. Daí vem mais uma vez o fascínio pelas fotografias de construção, a única maneira de eternizar a efemeridade do processo de construir. As memórias dos que empregaram os próprios músculos usando pás e enxadas são deles mesmos; já as fotografias estão para todos.

Fotografia é projeção. Fotografar uma construção pode ser este apetite de assegurar o que nos escapa a todo instante, esse _eu_ que construímos ininterruptamente e que em algum momento, quando estiver pronto — morto — fará parte da paisagem sentida pelos outros.

22 de novembro de 2016

nota_218: Super Likes para Chris Cornell



Tinder, energéticos, pachorra e punch na primeira turnê interestadual da banda cover Florence Tribute Brasil

PARTE I


Alex tem um problema

“Não, essa aqui é feia”, ele disse, para si mesmo, pensativo e um pouco tenso. Eram quase nove horas da manhã e estávamos no Aeroporto Internacional de Guarulhos, esperando nossa conexão para Maringá, a cidade canção no norte do Paraná, onde pousaríamos para a primeira turnê interestadual do projeto Florence Tribute Brasil. Que é uma banda cover da inglesa Florence + The Machine que não só homenageia como melhora as músicas do conjunto londrino, dando mais punch às canções originais. “Essa aqui! O que vocês acham dessa aqui?”, e ele nos mostrou a foto da moça no celular, que recebeu a aprovação dos presentes e um like dele. “Michele vai ser minha consultora”, ele disse, exibindo outras candidatas ao crivo da colega. “Ah, essa aqui eu não escolhi, não. Foi o Arnoldo”, ele comentou, rindo, entregando que esta mesma terceirização já havia sido feita a outro. “Eu fico com as mulheres que ele escolhe”, disse, e riu inocente, se é que este contexto permite inocências. Uma dezena de super likes recebidos era a contagem àquele momento.



Administrar likes e super likes no Tinder, no entanto, era o menor dos problemas do guitarrista Alex. Além de guitarrista, ele é o produtor da banda e foi quem agenciou esta turnê pelo Paraná. Naquele momento, em Guarulhos, a maior preocupação dele era providenciar um baixista. Quase duas horas antes, nós saímos do Aeroporto Internacional de Brasília com um a menos na escalação. Nada de Iano, o tal baixista. Parte indispensável da “cozinha” (baixo e bateria), Iano não havia aparecido para o embarque e estava incomunicável. Bad vibes para uma primeira turnê. Alex tinha um problema e péssimas perspectivas para resolvê-lo. Aliás, mesmo que o resolvesse, o estrago seria incontornável.
Formada há um ano, a Florence Tribute Brasil, além dos mencionados Alex e Iano, tem Arnoldo, na bateria, e Michele, nos vocais. Nenhum deles chegou ontem à música. Os quatro têm por volta de trinta anos e todos estão envolvidos com seus instrumentos há quase duas décadas. Ou mais, como é o caso da vocalista, que basicamente nasceu fazendo cosplay de Rosanah Fienngo em “O Amor e o Poder” — e cantava em missas desde os oito anos.

Antes que eu prossiga, preciso revelar que esses caras são meus amigos e Michele é minha namorada, mas vou usar a terceira pessoa quando me referir a ela com o namorado (porque sim). Hunter Thompson acharia ridícula essa postura, mas Gay Talese não. Prefiro Talese. Não sei se continuarei tendo essa namorada e esses amigos depois do que escrevi aqui, uma dúvida da qual Truman Capote riria, mas estou pagando pra ver. Voltemos aos rockstars.

Todos esses músicos têm projetos paralelos. Alguns autorais, como a Etno do baixista e a Trampa do baterista, excelentes bandas que mantêm a tradição brasiliense no rock; outros experimentais, como a Heat, deste mesmo elenco, mas com o acréscimo de outros guitarristas e com Alex nos vocais, um homem de talentos que vão além do Tinder. Alguns deles vivem exclusivamente da atividade musical, outros têm mais de uma atividade remunerada. De uma forma ou de outra, todos eles contam com o trabalho na música para compor a renda. (Música é trabalho, voltarei a este ponto mais de uma vez.) Todos eles agem com um dedicado profissionalismo. Todos já estão familiarizados com turnês dentro e fora do Distrito Federal. Mas esta era a primeira turnê deste projeto, a primeira viagem desta formação de elenco, e uma ausência tão importante quanto a de um membro indispensável da banda passaria uma péssima e antiprofissional imagem.

Entre pães de queijo borrachudos e capuccinos exalando os mais artificiais odores que a indústria alimentícia é capaz de produzir, lá estavam Alex, Michele e Arnoldo apreensivos, pensando em maneiras de atacar o problema Iano. Considerações sobre a permanência do faltoso no grupo ficou para outra hora. Àquele momento, um baixista substituto era a missão. Alex disparou seu WhatsApp em todas as direções, inclusive para os organizadores de um dos eventos da turnê (um gesto temeroso). Michele, que é natural do Paraná, também varreu seus contatos em busca de um baixista local. Arnoldo estava ocupado comendo pão de queijo.

É claro que a situação exigia um brainstorm, que, se para nada servisse, ao menos diminuiria as tensões. Mas brainstorm não houve, pois uma solução tapa-buracos pipocou. Alex recomendou o emprego de sampler para substituir Iano. Arnoldo adicionou tempero à ideia, sugerindo que eu subisse ao palco com um baixo desplugado para compor a cena. Caso Iano não desse sinal de vida, nem outro baixista fosse recrutado em cima da hora, esta seria a profilaxia, por mais danosa que fosse.

Eu estava ali apenas para acompanhar a banda, só depois é que uma função de verdade me foi atribuída, ou autoatribuída, a de fotógrafo acidental e cinegrafista amador, já que o fotógrafo e cinegrafista oficial da banda não pode ir. Pelo visto, mais uma função me caia no colo, a de falso baixista. Por precaução, já começava a ensaiar os milhares e tresloucados maneirismos do Iano, para parecer convincente, mesmo que Shane Embury ou Alex Webster fossem minhas referências no baixo. Aliás, ter como referências os baixistas do Napalm Death e do Cannibal Corpse talvez não ajudasse muito a uma banda do cenário indie pop-rock, principalmente porque eu jamais encostei num baixo antes.

Antes do embarque para a Cidade Canção, Iano deu notícias. Dormiu demais, perdeu o voo. Mas disse iria dar um jeito. A tensão do grupo não diminuiu, mas nada havia para ser feito. Embarcamos para Maringá para a primeira etapa da turnê.

O Fim da Picada

Alguns pares de meias, um punhado de cuecas. Cintos? Dois, talvez. Ou apenas um. Casacos? Um no próprio corpo, outro na bagagem. Ou três, Maringá estava bem fria. Livros, itens indispensáveis para viagens, embora papel pese bastante. Computador? Depende. Pares de sapato? Alguns, um que se adapte a todo terreno, outro especial, mais sofisticado. Tudo depende. O tipo de viagem, o destino da viagem, o temperamento e vaidade do viajante. Viajar a trabalho ou para Sibéria ou para Fortaleza produz malas bem distintas. Menos se você for um músico, aí não importa o destino: mesmo que você use apenas uma démodé pochete, um mundo inteiro de volumes e pesos o acompanhará. Não me refiro a gaitistas, claro.

Quando aterrizamos em Maringá, ainda precisamos enfrentar a espera das malas e o resgate dos instrumentos. Se você só precisa de um computador para fazer uma viagem de trabalho, seja gentil da próxima vez que encontrar um baterista no aeroporto. Se escolher uma paixão musical estivesse sob o nosso controle, uma viagem de avião carregando uma bateria ou uma tuba transformaria todo baterista ou tubista em gaitistas. Mas lá estava o Arnoldo, zen como um fauno saciado, carregando troços e aceitando pouca ajuda. Os demais também tinham tralhas. Alex tinha guitarra e pedais para levar e Michele tinha todo o aparato de microfone, cabos e conectores. Não só música é trabalho, como música dá trabalho. Eles levam anos para se aperfeiçoar em seus respectivos instrumentos, alguns anos ainda levarão, infelizmente, para serem melhor remunerados. Enquanto isso, seguirão carregando pedras.

Sobre remuneração, aliás, para meu choque, o baixo valor dos cachês ainda se deve a uma questão cultural, a crença de que música não é exatamente trabalho. Ou um trabalho menor; ou, ainda, decorativo. O menosprezo pelo trabalho do músico não é antiquado como eu imaginava, infelizmente. Quantas churrascarias, pizzarias, casamentos e aniversários os músicos terão de enfrentar até alcançar o mínimo satisfatório de sustento financeiro? Incontáveis. Para qualquer direção no cenário da música que olhemos, o músico sofrerá o mesmo atraso, e não falo só de indie rockers. A profissão de música envolve prática e estudo e mais prática, isso tudo nas horas que não são dedicadas a uma profissão ou a um trabalho remunerado paralelos, relacionados ou não ao exercício musical. Muitos músicos não têm alternativas senão dar aulas particulares para se sustentar. Penso na quantidade de violinistas e pianistas que teriam mais tempo para o aperfeiçoamento musical se não tivessem de passar tantas horas se deslocando de um aluno particular para outro. Ou, além de alunos particulares, apresentações em estações de metrô, semáforos e rodoviárias, e nesses casos eu incluiria os gaitistas.

Antes que seja feita a observação de que toda profissão é assim, que se leva anos para atingir reconhecimento e prestígio em qualquer área, tenho de reavisar que não falo de reconhecimento e prestígio, falo de sustento financeiro básico. Ênfase em básico. Após cinco anos de faculdade, os piores advogados ou engenheiros conseguem com suas assinaturas em petições e projetos o que um músico, depois de décadas tocando nas formaturas desses mesmos advogados ou engenheiros, nem sonha. Uma inscrição na OAB ou um registro no CREA transforma qualquer pessoa, imediatamente, num profissional. A sociedade, tradicionalmente, o reconhece como tal. Um violão embaixo do braço, não, jamais, mesmo que o portador do violão tenha um CRM-OMB (registro no Conselho Regional dos Músicos).

Voltando aos nossos músicos, Alex e Michele têm profissões paralelas, não relacionadas à música. Além de baixista, Iano é ator. Arnoldo, apenas músico.

Quando aterrissamos em Maringá uma van esperava por nós. Depois de tudo isso que eu falei, uma van à espera dos músicos, para a primeira turnê interestadual de uma banda cover, se traduz desta forma: eles são realmente muito bons. Um privilégio, sem dúvida, mas conquistado às custas de muitas cordas vocais calejadas, baquetas quebradas, bumbos e cordas rompidos. O motorista se chamava Jorge, um proativo silencioso e diligente, que foi rebatizado por Alex de Jefferson. Eis o porquê: “Ele tem muito mais cara de Jefferson”, ele disse.

“Jeff, onde tem uma churrascaria boa por aqui? Um restaurante legal pra gente comer”, Alex disse.

“Vou levar vocês numa [churrascaria] boa”, Jeff disse.

Estávamos famintos. Carregamos todas as tralhas na van e deixamos a Jeff a missão de nos alimentar.
A banda ainda não tinha um baixista. Ainda pairava sobre o grupo o fantasma do mau exemplo profissional. Um dos contratantes, o dono do pub onde a banca tocaria em Cascavel, era ele próprio um baixista — o pub inclusive ostentava um baixo autografado por Rodrigo Santos, baixista do Barão Vermelho. Iano provavelmente estaria disponível para o segundo show, um festival de rock em Maringá, mas ainda incerto para o primeiro. A banda ainda estava preocupada e tensa com a ausência do baixista, e eu, se fosse acionado como Iano fictício, ainda não tinha decorado todo o arsenal dele de caretas para minha imitação. Ele é um cara muito expressivo, em cima do palco. Como se não houvesse tensão suficiente no interior da van, Jeff nos presenteia com uma autêntica churrascaria de beira de estrada (embora, tecnicamente, não fosse na beira da estrada), com direito ao famoso e indefectível “teclado de churrascaria” como trilha sonora e sem direito a picanha ou coração de galinha, pois o digníssimo estabelecimento não oferecia estas iguarias. A churrascaria se chamava… O Fim da Picada. (Não estou de brincadeira.)

Almoçamos. Embora a alcatra estivesse deliciosa, a fome parece não ter sido tempero suficiente para a comida ganhar boas avaliações. Mas alimentados estávamos. Prontos para algumas horas de estrada.

A turnê envolveria horas de chão. Maringá, Cascavel e Maringá novamente, porque a segunda apresentação seria no Festival Santo Rock, no Clube Hípico da cidade. Há muito o que fazer durante quatro horas dentro de uma van numa viagem intermunicipal. Palavras cruzadas, sudoku, leitura, crochê, telefonemas, para quem pratica essa arte, e a lista segue. Mas pouco se fez. A primeira hora de viagem foi preenchida com o habitual ânimo de início de jornada. Algumas cervejas, Alex discorrendo sobre Alter Brigde e Audioslave e fazendo contagens de likes no Tinder, Arnoldo fazendo declarações de amor a Ivete Sangalo, Alex, Michele e Arnoldo trocando figurinhas sobre tatuadores bons e baratos.

As demais três horas e pouco foram preenchidas com sono e pachorra. Michele e o namorado ainda se divertiram um pouco mais, com muita saliva apaixonada, e ela, paranaense, explicou a ele um pouco da geografia do lugar, tão diferente do cerrado onde mora o pernambucano. Mas a van testemunhou mais sonos pesados e mal acomodados do que sexo, drogas e rock n’ roll.

Aqueles três dormindo na van, vindo de noites mal dormidas por terem sido usadas em shows anteriores, por terem acordado cedo para o voo, por estarem já cansados com a preocupação de que talvez falhassem na primeira apresentação da turnê, aqueles três, depois de horas de estrada, ainda teriam mais uma atividade pachorrenta para fazer: a passagem de som.

Mais um momento importante na vida do músico. A passagem de som é uma mistura de ensaio do repertório, reconhecimento do ambiente acústico, teste de palco e iluminação, ajuste de instrumentos e de todos os recursos tecnológicos disponíveis para que o show aconteça. O som precisa estar bom para todos, público e banda. Pode parecer óbvio falar isso, mas eles, os músicos, precisam se ouvir muito bem. Esta é uma das coisas mais bonitas na música: é a única linguagem em que todos falam ao mesmo tempo e todos se ouvem ao mesmo tempo. Uma arte comungadora por natureza.
A cada passagem de som, um novo técnico de som, um novo relacionamento para ser construído, mesmo que por uma noite. Essa é uma peça importante para uma boa apresentação. Essencial, até. Tocar flauta, violino ou bongô, numa praça, é diferente de tocar guitarra e baixo com pedais e bateria com samplers. Aí entra o técnico, que acaba sendo mais um membro da equipe de quem estiver sobre o palco. A vocalista, Michele, costuma agradecer aos técnicos de som das casas onde se apresenta, quando eles fazem um bom trabalho. Se a qualidade do som é boa, o trabalho deles não é percebido, o que é uma injustiça. Se é uma merda, todos se prejudicam, a não ser que o artista sobre o palco seja um Tim Maia, que nunca reprimiu uma espinafração a maus técnicos.

O bom funcionamento do componente eletrônico é fundamental. Um Zakk Wylde com uma Gibson Les Paul nos braços não fará a menor diferença para os ouvidos do público se das caixas de som (PA, public address, no jargão dos músicos) só saírem zunidos de marimbondos pentatônicos. Eric Hobsbawm, em História Social do Jazz, diz que essa é uma das marcas próprias do rock, uma inovação exclusiva: a tecnologia que envolveu a eletrificação dos instrumentos. Comparando, em seus desenvolvimentos, essas duas potências da música popular do século XX, o jazz e o rock, Hobsbawm fala que o rock foi o primeiro gênero a fazer uso sistemático de componentes elétricos (no jazz, mesmo na época das primeiras guitarras elétricas, este uso não tinha a mesma amplitude; e quando falo de “primeiras guitarras elétricas” eu me refiro a gigantes como Charlie Christian e Oscar Moore). A formação clássica de um quinteto praticamente independe dessa tecnologia: baixo acústico, bateria, piano, trompete, sax. Só muito depois é que o jazz se preocuparia com essa eletrificação. O rock foi que precisou de mais recursos elétricos, desde o início, pois o que seria dele sem as distorções de baixo e guitarra e seus amplificadores? Para fazer isso tudo funcionar bem, isto é, soar bem para o público, e considerando a acústica própria de cada ambiente, um bom técnico de som é necessário.

Ainda sobre as características fundadoras do rock, Hobsbawm fala sobre a noção de conjunto, outro ponto essencial para o drama dos nossos músicos. Enquanto no jazz, por exemplo, um quinteto é formado a partir do nome do seu líder, no rock o grupo é que é batizado. Não só isso: num quinteto de jazz, o nome de quem toca o instrumento é mais importante do que a presença do instrumento. O famoso quinteto de Miles Davis tinha ele próprio no trompete, John Coltrane no sax, Paul Chambers no baixo, Red Garland no piano, Philly Joe Jones na bateria. Não era uma questão de ter um sax no quinteto, mas de ter um John Coltrane no sax do quinteto. Como diz Hobsbawn, um grupo de rock é “essencialmente uma unidade coletiva, em vez de um pequeno grupo de virtuoses tentando demonstrar as suas habilidades”. Quando uma banda de rock é formada, a banda, como um todo, é o que conta, mesmo que haja lideranças internas. Um Led Zeppelin só foi possível por um amálgama de músicos específicos, mas caso faltasse um daqueles membros a banda continuaria se chamando Led Zeppelin, mesmo que a história sentisse a falta da soma de Page, Plant, Bonham, Jones. Essa noção de conjunto tem exemplos melhores: o Black Sabbath permaneceu sendo o Black Sabbath, mesmo que Ozzy tenha sido substituído por Dio; o Metallica permaneceu o Metallica, mesmo depois de três baixistas e dois guitarristas solo distintos.

Horas depois, tortos, amassados e parcialmente revitalizados do sono na estrada, Michele, Alex e Arnoldo chegaram ao pub Hoolligans, em Cascavel. Da estrada para o mercado, deste para a passagem de som. O lutador do UFC e ex-campeão do Pride Maurício Shogun e a modelo e apresentadora Ana Hickmann estavam no mesmo voo nosso de Guarulhos a Maringá, mas, considerando o dia que tiveram e tudo que os levou até ali, e o eloquente fato de eu os conhecer, para mim as verdadeiras celebridades naquele avião eram Michele, Alex, Arnoldo e a dor de cabeça deles. Cadê o baixista?

“Ué, por que vocês demoraram tanto?”, disse um descansado Iano, já plugado e sobre o palco, esperando os demais membros da banda, passando o som e passando na cara dos demais que o profissionalismo é o último que morre. E que o rock é grupal. Ele dormiu de mais, mas acordou a tempo de dobrar a camisa do Botafogo na mala e pegar um avião para o Paraná. A banda não precisaria de samplers, nem de mim fingindo sobre o palco — justo quando eu já havia dominado a arte da imitação.

Alívio geral. Uma verdade a ser dita é que a banda nunca perdeu o bom humor durante todo este percalço.

O Adam de Apucarana

A Florence Tribute Brasil não era a única banda a se apresentar no Hooligans. Depois dos brasilienses, um trio de nome incerto subiria ao palco para uma tour de force musical que incluiria algumas horas de cover singing. O prato principal do menu deste trio era Maroon 5. Mas haveria muito mais que isso.

O pub Hooligans tem uma estrutura invejável. Ou invejável para os padrões brasilienses. Curioso que a capital do rock não tenha um estabelecimento tão preparado como aquele de Cascavel. Um pub com dois ambientes, palco acortinado, entrada separada para músicos, um camarim espaçoso e outro conversível e banheiros exclusivos para os artistas. Sem contar com toda a estética verde de leprechaun, que é o mascote inapelável de um pub assim. De todas as características da casa, a mais inusitada foi um certo puritanismo: depois do show, tomando cerveja e relaxando, Michele não pode ficar sentada no colo do namorado, a casa proíbe esta intimidade. Ou puritanismo, ou cuidado excessivo com os móveis, não sei dizer.

A casa costuma receber nomes autorais locais e nacionais (Scalene já se apresentou lá e participantes de The Voice e congêneres costumam aparecer), mas a programação da casa é quase exclusivamente composta por bandas covers, tanto as descaracterizadas, que tomam mais liberdades musicais e estéticas em relação ao grupo original, quanto as caracterizadas, que emulam o conjunto original em tudo, inclusive esteticamente. Ou principalmente.

Sobre aquele palco, já pisaram o Kiss de um Gene Simmons de língua curta. Os Strokes de um Julian Casablancas menos cosmopolita (e menos milionário, suponho). Os Red Hot Chilli Peppers de um Flea sem molejo. Os Mamomas Assassinas de gente viva. O Pink Floyd de jovens imberbes. O Maroon 5 do Adam de Apucarana. Para quem a Florente Tribute Brasil abriria a noite.
Depois das passagens de som, ambas as bandas se encontrariam na churrascaria (sim, mais uma), que serviria arroz com batatas fritas para os músicos de Brasília. Iano, vegetariano, ganharia um par de ovos fritos para acompanhar. O acordo local era que a churrascaria Martingnoni iria abastecer os músicos de ambas as bandas com pratos executivos decentes para enfrentar a noite de rock. Feijão e carne deveriam estar na bandeja, mas a comida demorou tanto que a Florente Tribute Brasil só tempo tempo de comer alface, arroz e batatas fritas, com chope, que não estava incluso. Porém, a comida demorou o suficiente para chegar na hora em que o Adam Levine de Apucarana apareceu. Talvez esta tenha sido uma justiça divina, aquele Adam precisaria de muita sustância.

Os brasilienses saíram da churrascaria para produzir o visual, e, exceto pela albumina do Iano, nenhuma proteína foi ingerida. Ambas as bandas estavam hospedadas na mesma pousada, outro luxo de turnê interestadual. Na sala da hospedagem, esperávamos eu, Arnoldo, Alex e o Adam de Apucarana os demais membros ficarem prontos. Eu estava mais presente de corpo, com a mente perdida em alguma página de Boswell ou em algum acorde do Burzum, Arnoldo, eu não sei o que ele fazia, mas Alex e o Adam de Apucarana conversavam, e aos poucos esta conversa ganhou minha atenção.

O Alex que abriu estas reminiscências… is quite a character. Quase vinte anos atrás, ele começou a tocar guitarra. Depois, investiu noutro instrumento, a voz. Hoje é guitarrista no Florence Tribute Brasil e vocalista na Heat e produtor de ambas, das quais cuida com muita dedicação. Fazem muito sucesso com as mulheres os homens de pele bronzeada, olhos verdes, dentes brancos e braço tatuado, e Alex preenche estes requisitos, e mesmo uma incipiente calvície é incapaz de tirar o foco destes atributos. Ele não é um virtuose dos palcos, não é pirotécnico, nem cantando nem tocando, embora faça ambas as coisas bem. Faz um estilo mais contido e técnico, mas nem por isso menos voluntarioso. Eu já o vi mais de uma vez descendo do palco, microfone na mão, com a missão de entusiasmar a audiência. A ele, outros músicos e a mais variada casta de fãs já dedicaram diversos epítetos. O Adam Levine do Distrito Federal, talvez por fazer músicas do Maroon 5 com a Heat. O Chris Cornell do Cerrado, talvez por ter o americano com um dos seus ídolos — o primeiro CD solo de Cornell está entre os seus prediletos — , ou talvez pelos olhos verdes. Ninguém chegou ao ponto, ainda, de chamá-lo de o “Lemmy Kilmister do Planalto Central”, o que seria uma prova irrefutável de sua beleza, mas ele impressiona (também) pela aparência.

Egresso de um matrimônio e ainda ruminando as feridas da separação, Alex, o Chris Cornell do Cerrado, foi adotado pelo Tinder e até àquele momento ganhava um super like atrás do outro. Dias antes de iniciar a turnê, ele já havia mudado sua localização no aplicativo para as cidades paranaenses que visitaria, enfileirando uma grande lista de… contatos. E foi assim, num raro momento de seriedade — ele é bem goofy a maior parte do tempo — , que Alex falava sobre si e sobre seu ex-casamento, já pronto mas descalço, com uma Budweiser na mão, sentado ao lado do Adam de Apucarana, que estava vidrado no brasiliense. Isto foi o que me chamou a atenção dois parágrafos acima.

Se eu pudesse fazer um daqueles memes “Namore com alguém que te olha como…” a partir desta turnê, o complemento seria “como o Adam de Apucarana olha para o Cornell do Cerrado”.
Aquele foi o único momento, mesmo que breve, de vulnerabilidade e seriedade não disfarçada do Alex. Nem quando a banda estava nervosa pelo possível falta de um baixista ele pareceu assim. Como as feridas são ótimos agentes de ligação entre seres humanos, o Adam de Apucarana também passava pelo mesmo, ainda cicatrizava pelo fim dos seus relacionamentos. Não só o fim do relacionamento pessoal, mas o fim do seu relacionamento musical. Ele era membro de uma banda cover de Maroon 5 que também havia se separado. Aquela noite seria a primeira apresentação dele com novos integrantes, que se resumiam a dois, ambos apucaranenses: o baterista, com quem já tocava na banda anterior e que escolheu o lado dele na treta, e o baixista, cuja primeiríssima apresentação sobre um palco seria naquela noite. Ao Adam de Apucarana coube a dupla função de cantar e tocar guitarra. Que homem.

Considerando este pequeno contexto, não era de se espantar o encanto que Alex exercia sobre ele. Pois lá estava, ao seu lado, naquele sofá manchado de orgias antigas, 1,83 metro de Adam Levine made in Brasília, abrindo o coração, provocando sintonias involuntárias tanto pessoais quanto musicais com o Adam de Apucarana. A sintonia cresceu e então a música fez a sua parte. O apucaranense convidou Michele para ser sua Christina Aguillera em “Moves Like Jagger” e convidou a ambos para cantaram com ele “This Love”, o primeiro hit do Maroon 5.

“As mina pira quando eu canto Maroon 5, imagina elas quando ouvirem o próprio Adam Levine cantando”, ele disse, apontando para Alex, e rindo, sozinho. Uma observação curiosa essa do Adam de Apucarana, considerando que ele encarna muito mais o personagem Adam Levine que Alex, a ponto de ter a mesmíssima tatuagem do Adam original, um tigre ao longo da dobra do cotovelo direito, e de usar, durante o show, uma manga de tatuagem falsa no braço esquerdo, mimetizando as tatuagens de verdade do Adam de verdade. Como Iano observaria no dia seguinte, usar a tatuagem falsa era algo mais chocante que ter a cópia tatuada de um tigre.

Havia algo de fascinante neste… fascínio. Eu tive uma oportunidade que, até agora, eu não sei se soube aproveitar, como escritor. Um homem, um músico, fascinando por um artista famoso e mimetizador deste mesmo artista, ferido e seguindo em frente, encontra, numa noite, vindo de outra cidade, outro homem, outro músico, também ferido, também seguindo em frente, que não tem gana alguma de mimetizar o artista famoso, mas que goza de muito mais recursos para isso. Talvez este episódio mereça um ensaio próprio, que ficará para outra hora, porque agora temos um show para fazer.

Relato de uma queda

Jefferson-Jorge estacionou em frente à pousada e a Florence Tribute Brasil embarcou. A estrutura do Hooligans, como já disse, contribui muito para a vibe de artista do rock: ninguém precisou cortar caminho por meio do próprio público para chegar ao palco, havia uma entrada própria para a banda e a cortina, cumprindo seu papel, manteve a surpresa e o encanto até o último momento. Um artefato tão simples faz toda a diferença, tanto para quem está sobre o palco quanto para quem está olhando para ele — o clichê da “quarta parede”. Eu tenho acompanhado esses músicos há algum tempo e não ter de vê-los tirando dúvidas sobre setlists, fazendo uma última checagem na afinação dos instrumentos ou resolvendo tretinhas de última hora foi confortador. Eles fizeram isso tudo, porque há pedais para conferir, in-ears para colocar, microfones para testar, mas ninguém precisou ver isso tudo. A cortina abriu, a banda começou a tocar.

Eles costumam começar os shows com ”Rabbit Heart (Raise It Up)”, uma música que eu nunca ouvi com a Florence + The Machine original até escrever este parágrafo. Talvez seja o hábito, mas a maneira como estes brasilienses a tocam tem mais meu apreço: eles dão mais força à música, mais “punch”, como já disse, e a vocalista, Michele, tem mais potência vocal que a Florence Welch.
Pode parecer pretensioso, ou mesmo arrogante, dizer que a música de um artista fica melhor com outro. Mas o que mais vejo são exemplos disso. Claro, não me refiro a Caetano Veloso cantando Nirvana, que ficou um horror, nem a Adele remixada por DJ’s infames, outro horror musical, nem a Chris Cornell cantando “Billie Jean”, um despropósito. Estou me referindo a Pantera cantando “Planet Caravan”, do Black Sabbath. Metallica estilizando “Turn The Page”, de Bob Seger. Também falo de Paula Fernandes finalmente conferindo à “Nothing Else Matters” a breguice que essa música, também do Metallica, merecia desde o início. Falo, principalmente, de Tori Amos subvertendo todo o universo conhecido e fazendo uma versão tétrica de “Raining Blood”, do Slayer, incorporando toda a morbidez, frieza e rancor da letra de Kerry King e Jeff Hanneman.

Quase todas as músicas do repertório da Florence Tribute Brasil eu mesmo só ouvi com Michele, Alex, Arnoldo e Iano, não com a Florence + The Machine. Neste ponto, volto àquela noção de “unidade coletiva” de Hobsbawm que mencionei acima. Uma voz potente, um guitarrista competente e na cozinha um baterista e um baixista porradeiros fazem deste grupo cover menos mimetizador e mais estilizador. Não é uma questão de transposição, como, por exemplo, o trabalho dos excelentes instrumentistas Ricardo Vignini e Zé Helder, que tocam clássicos do rock na viola caipira, como “Voodoo Child”, de Jimi Hendrix, e “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana. É um trabalho de reestilização mesmo, porque estes nossos personagens permanecem sob a aba do indie pop-rock, mas com sabor próprio.

O show foi bom, a casa gostou, o público curtiu, os músicos arrasaram. A primeira apresentação da banda foi um sucesso, inclusive por um fato inédito: acostumada ao palco desde sempre, a vocalista Michele nunca havia caído sob os holofotes. Era um receio dela há anos, que parecia muito maior enquanto era um medo particular. Ela caiu de bunda no palco, tirou os sapatos, se levantou e continuou cantando durante tudo isso. “Não foi nada de mais”, ela disse, decepcionada com a pouca gravidade da coisa.

Quando o show deles acabou, Michele e Alex subiriam ao palco novamente para prestigiar o convite do Adam de Apucarana, que se mostrou um herói do entretenimento noturno. Cantando e tocando guitarra, à frente de um trio polivalente e estreante, o homem cantou Maroon 5 até não poder mais, depois emendou num repertório típico da música tocada em balada, todos os hits esperados e multivariados: AC/DC, Titãs, Los Hermanos, Metallica, O Rappa, Legião Urbana, Capital Inicial, Dire Straits, U2, Raimundos, Rage Against The Machine, Paralamas do Sucesso, Skank, Bon Jovi e mais gente que eu não lembro. Ainda bem que ele estava bem alimentado.

A noite estava fria e a banda ficou no pub, aquecendo o corpo com álcool e confraternizando com fãs atiradas, exceto Alex, que já tinha uma tinderiana à sua espera. Toda a banda é bonita, os quatro membros despertam paixões por onde passam. É um combo poderoso, o sex appeal de serem músicos e de serem como são. A presença do Alex, a malandragem do Iano, a nonchalance do Arnoldo e o carisma efervescente da Michele. “É a banda mais bonita em que já toquei”, disse Iano em um dos ensaios pré-turnê.

Eles continuariam a confraternização coletiva na pousada, junto com o trio do Adam de Apucarana, mas, a julgar por relatos, o único rockstar a contribuir com a má imagem do sofá da sala e a dormir acompanhado foi Michele, que arrastou o namorado mais cedo para o sofá da pousada.

PARTE II

“Quero cerveja, papai”

É uma verdade universalmente admitida que um guitarrista solteiro, na função de produtor de uma banda de indie pop-rock, deve estar precisando de… filhos.

Durante a confraternização, o pub disponibilizou apenas um cartão de consumação, no nome do Alex, que ficou responsável por prover álcool para a banda. A astrologia parece ter desempenhado algum papel nisso: um canceriano com ascendente em Capricórnio, mãe e pai numa mesma pessoa. Como provedor, Alex não deixou faltar cervejas e destilados para os colegas e tanto cuidado e atenção lhe renderiam o apelido de “papai” por parte dos seus filhos Arnoldo e Iano. Este papel o papai Alex não abandonaria pelo restante da viagem. “Quero cerveja, papai”, diziam seus filhos, sem parar. “Eu não gosto quando você bebe, papai”, também diziam, aos primeiros sinais de exagero paterno.

A manhã seguinte começaria com o pai Alex pondo ordem na casa e acordando a todos em cima da hora para não perderem o horário da van. “Eu não acredito que vou ter de ser o pai de vocês mesmo. A gente tem de sair agora!”, disse, mais impressionado com a veracidade da função que ocupava do que com o atraso dos demais (o namorado da vocalista foi quem mais se atrasou). Cada um da trupe estava exausto, à sua maneira, e todo mundo se arrumou às pressas para cair na estrada. Algumas horas de viagem de volta à Maringá, para a passagem de som às 19h, tendo antes de parar em qualquer bodega para comer feijão com arroz.

Pouparei você de mais essas horas de van. O quadro era o do que se espera: gente dormindo troncha, paradas para xixi e lanchinho, mais gente dormindo troncha. Pelo menos trilha sonora era boa: The Black Angels.

A apresentação em Maringá seria no Festival Santo Rock, que acontece anualmente desde 2012, no Clube Hípico de Maringá. Dois palcos, muitas bandas, vários gostos. A maior atração do palco principal, mas não a última, era o desgastado Ira!. Fechando as atrações deste palco, outra banda polivalente, a Putz Hits Band, tocando aquela mesma salada mista do Adam de Apucanara. Já a atração final do palco externo seria a banda local Coyote Verde, um quinteto de ótimos instrumentistas e barbas chamativas, que tinha no repertório músicas próprias e de Bruno Mars, Muse e Cake. A Florence Tribute Brasil seria a penúltima deste palco.

Desta vez, um pouco mais de estrutura esperava os músicos. Eles ficariam hospedados num hotel, com direito a café da manhã e quartos separados, um para Alex e seus dois filhos, outro para Michele e o namorado. Quartos com crucifixos e exemplares do Novo Testamento.

Exceto pelo Ira!, as demais bandas tocariam mais covers do que músicas originais, ou exclusivamente covers, como é o caso dos nossos rockeiros. Assim como a do Adam de Apucarana na noite anterior, a madrugada no palco principal seria toda uma tour de force da banda Putz, que fecharia a noite tocando a Metallica e AC/DC. Era quase o mesmo setlist. Já ouvi alguns músicos se queixarem de que o repertório padrão é saturado — e é mesmo. “Pescador de ilusões”, “Enter Sandman”, “Ana Júlia”, “Killing In The Name”, “Mulher de Fases”… Refrescar este repertório dependeria de uma renovação que demora alguns anos, ou décadas. Ou seja, as músicas a compor o próximo repertório diferente daquele já chegariam saturadas pela presença no mainstream. É um beco sem saída. Mas não é só a consagração popular que faz essas músicas serem tocadas tão exaustivamente. Se fosse apenas o elemento popular deste apetite musical, o som mecânico seria suficiente.

Não, não é apenas o apelo popular, é o apelo de serem músicas consagradas tocadas ao vivo. Que a música é uma arte comungadora, já conversamos sobre isso parágrafos atrás, mas me referia a quem faz a música. Agora me refiro a quem a ouve. Menos em se tratando de Lana Del Rey, a música ao vivo é sempre mais viva e mais penetrante. É o caso de todas as bandas citadas aqui que prestigiam a música de outros artistas. Não vejo como um fã trocaria a apresentação de uma banda pela da sua banda cover, mas a banda cover paga um tributo artístico que vai além do status de ser meramente vicária. É, mais uma vez, uma questão de comunhão.

Desde que passei a acompanhar a Florence Tribute Brasil aqui no Distrito Federal que tenho compilado, inadvertidamente, algumas reações de fãs da Florence Welch quanto à Michele. Se o fator ao vivo conta para a comunhão do público variado, conta ainda mais para o público personalizado de uma banda específica.

Sob um clima hostil

Além de cantar com Florence Tribute Brasil e Heat, Michele tem pelo menos três outros projetos fixos. Um para festas corporativas, casamentos e aniversários, e outros dois, La Belle e Michele Chitko & Banda, aquele dedicado à música dançante tanto em português quanto em inglês, sobretudo o soul, e este dedicado às divas do pop rock internacional e nacional. Madonna, Kylie Minogue, Sia, Anitta, Beyoncè, todas elas. Ela consegue cantar qualquer coisa, de Led Zeppelin a Caetano Veloso, menos o death metal que o namorado tanto pede.

Michele é loira. Oxigenada. Para esta turnê, tonalizou os cabelos em vermelho, um aceno à ruivice da Florence Welch. No mais, nada na performance desta cantora lembra a da inglesa. Sobre o palco, ela poderia ser, hoje em dia, uma mistura de Axl Rose com Elis Regina — ela mesma assume ter sido a Pimentinha uma de suas primeiras inspirações. Mas nem sempre foi assim, pelo que dizem quem a conhece há mais tempo. A julgar pelo que já ouvi clandestinamente, Michele parece ter passado por alguma metanoia no último par de anos que a deixou melhor sobre o palco, mais explosiva e mais teatral, e é deste traço que homens e mulheres lembram quando a encontram na rua. “Você é quem faz a Florence, não é?”, perguntou um fã da banda inglesa. “Você arrasa”, completou. Este tipo de interação já aconteceu várias vezes, encontros aleatórios em bares, shoppings, padarias.
Durante os shows da Florence Tribute Brasil, a interação costuma ser mais intensa, por conta do público em questão. Com tantos projetos distintos, natural que ela tenha mais de um tipo de público para satisfazer. Da impessoalidade do público em festas de réveillon à intimidade instantânea dos fãs de Florence Welch. Mas o público é por quem ela tem afeto genuíno é o LGBT, que compõe a base de fãs da Florence + The Machine e que é o mais assíduo em dois de seus projetos paralelos, o La Belle e o Michele Chitko & Banda. É o público mais fiel, o mais animado e o mais dedicado. Também é o público que menos a vê como objeto, um ponto sensível desta narrativa. Porque pode ser ofensivo cantar em confraternização de empresas de tecnologia, com todo aquele exército heteronormativo de camisas polo azuis e sapatênis, sobretudo se a cantora não quiser cantar axé ou música sertaneja (ela não faz ambos os gêneros, nem jovem guarda). Ofensivo por ser uma mulher talentosa exercendo uma profissão, mais uma vez, pouco reconhecida. Eu nunca vi alguém oferecer mil dinheiros para um dentista “extrair um dente agora, da minha boca, sem doer nada, quero ver!”, mas vi músicos passarem por isso. A própria Michele já sofreu isso, e ofertaram a ela muito menos que mil dinheiros para cantar a capela durante um happy hour. É uma ofensa ao talento e à profissão. Qualquer oferta é feita e sob quaisquer condições, porque qualquer coisa compensaria aquilo, que mal é considerado trabalho. É o mesmo drama de modelos iniciantes, atores e atrizes, designers, diagramadores, redatores e revisores e todo o leque de profissões ligadas à cultura, às artes e às humanidades.

Em dois shows desta banda, em cidades diferentes, numa delas durante um festival de rock, Michele foi a única mulher, em ambos os lugares, a subir no palco para trabalhar, a única musicista. Isto é eloquente o suficiente sobre o sexismo em nossa cultura e na cultura musical. Também é eloquente sobre o tipo de mulher que ela é, uma mulher que começou a cantar aos 15 anos em churrascarias da sua cidade natal, União da Vitória, uma pequena Bucóvina sob um clima permanentemente hostil: quente ou fria, com sol ou com chuva, a cidade sempre é úmida e abafada. Para estar sobre aquele palco, no seu estado de origem, ela havia enfrentado muita coisa, inclusive o assédio reiterado a que estão sujeitas — e não deveriam estar — as artistas de palco. Um ser humano resiliente, um fato indiscutível por tudo que já soube até hoje sobre ela.

Quanto ao show em Maringá, descrever a performance da banda seria um sacrilégio. Era preciso estar lá pra ver. Todos adoraram. Eles arrasaram. Alguns fãs histéricos da Florence Welch pediram músicas e cantaram junto. Nem o descompasso do sampler numa das músicas, causado pela trepidação das caixas de som no computador do Arnoldo, tirou o brilho da noite. Nem o Ira!, que tocava ao mesmo tempo que eles no palco interno, roubou seu público inicial. Nem a queima de metade das caixas de som, no último terço da apresentação, ofuscou o talento dos artistas. Nem o frio, que afugentou boa parte do público presente, fez o quarteto esmorecer. Artistas incríveis.

A mulher mais gostosa do mundo

Acabou o show, a banda guardou os instrumentos. Michele foi recebida atrás do palco com aplausos, abraços e pedidos de foto, ela é sempre simpática e receptiva com o público. Depois de fotos e trocas de cartões de visita, ela sumiu com o namorado. Pai solteiro, Alex foi com os filhos aproveitar a noite e prestigiar a banda Putz, que varou a madrugada cantando de tudo.

Aqui, mais uma vez, um encontro de espelhos que eu mesmo não teria imaginado fosse eu o roteirista desta viagem. Alex e Arnoldo, alcoolizados, viram o Alex do Futuro na figura do vocalista da banda Putz. Ambos “vistosos” e marrentos, ambos de olhos verdes e cantores (Alex também canta, lembra?). Alex via a si mesmo no futuro, porque, aparentemente, seu reflexo era mais velho. Curiosamente, o Alex do Futuro se apresenta da mesma maneira como este Alex é chamado pela mãe, “Ale”. Muitas coincidências. Não sei se o choque deste encontro foi ou não motivador para a crescente ingestão de álcool, nem o próprio Alex lembra se foi, mas mais álcool foi consumido.
Como se este encontro não houvesse sido o suficiente para processar, quando o reencontrei em algum momento em frente ao palco principal, o Terror do Tinder, o Chris Cornell do Cerrado, o Adam
Levine do Distrito Federal, Alex disse ter encontrado “a mulher mais gostosa do mundo”. Que lhe deu um fora sem clemência. Ela estava lá pelo Alex do Futuro, ela disse, numa outra abordagem malsucedida do Alex do Presente.

Pelo resto da madrugada e até o café da manhã no hotel, ele repetiria que o “toco” fora justo, visto que a moça era “a mulher mais gostosa do mundo”, uma qualidade que Iano, Michele e o namorado não conseguiam enxergar na anônima, que não se comparava a mulher alguma com quem o grupo já o tivesse visto e ele mesmo concordaria com este juízo depois de escoar o álcool do sangue. Mas ele ainda iria beijar na boca. “Questão de honra!”, dizia.

Horas depois, depois de outras hesitações, uma guerreira cubista lavou sua honra quando o sol já iluminava o clube.

Alex, Iano, Michele e o namorado tomaram café juntos e já se despediram. O irmão da Michele iria casar, ela e o namorado partiriam para União da Vitória depois de uma soneca. Alex e Iano tinham um voo para Brasília em algumas horas. Permaneceriam acordados e alcoolizados o quanto conseguissem.

Arnoldo estava sumido havia tempos. Uma fã motorizada o capturou. Alguém tinha de por em prática o lema eterno: sexo, drogas e rock n’ roll.